“Só fazer” e “fazer o combinado”

Libertação de “representações” e criação de repertórios sonoros no Teatro Playback.

por Eduardo Campos

 

Escrevi boa parte desse texto durante a oficina de corpo com a Sandra Meyer e não consegui terminar. Parecia faltar alguma coisa nas minhas ideias. Agora, depois da oficina com a Barbara Biscaro, me senti inspirado para terminá-lo e acredito ter descoberto o que faltava: a mistura, a amálgama, palavra utilizada várias vezes pela Barbara.

O desafio no nosso projeto é pensar em novas formas, lapidar as técnicas que já existem e reforçar o caráter artístico do Teatro Playback. Sendo assim, as oficinas que fizemos vêm nesse sentido. Não são as oficineiras que devem trazer algo que possamos utilizar no trabalho, somos nós que temos que fazer a ligação. Então, durante os encontros com elas, a cabeça estava sempre conectada em como utilizar exercício ‘a’ ou ‘b’ no espetáculo. Em alguns momentos até “forçamos a barra” para utilizar determinado exercício em cena, criando cenas completamente musicais, por exemplo, chegando a extrapolar o limite do que seria aceitável se estivéssemos em uma apresentação

A partir daqui vou misturar as coisas que havia escrito há um mês sobre a oficina da Sandra com as coisas que estão na cabeça sobre a oficina da Barbara. Aliás, é interessante a mistura porque as duas coisas são diferentes na essência. Sandra nos trouxe uma possibilidade de abrir a atuação de forma poética, confiando no poder do movimento e da ação. E Barbara nos trouxe a sistematização, a construção de formatos fixos a serem utilizados de forma mais conscientes em cena. É mais ou menos poder “só fazer” com a atuação e “fazer o combinado” na hora de usar a voz.

O trabalho de corpo

O trabalho que fizemos com a Sandra nos fez pensar em como resolver algumas questões que nos incomoda no Teatro Playback. São preocupações de como criar ações poéticas no lugar de ações realistas. Não que as ações realistas sejam um problema, mas sim como enriquecer poeticamente as cenas no Teatro Playback.

Os exercícios vieram a partir de briefing da Clarice, explicando o projeto e o que desejávamos com a oficina dela. Sandra disse ter se informado sobre o Teatro Playback a partir de textos da Clarice e do pouco que já havia visto. Assim ela nos trouxe exercícios que são utilizados no viewpoints (pontos de vista) criado por Mary Overlie e expandido por Anne Bogart e Tina Landau.

Nesse método de criação, as ações são as geradoras de “vida” na cena. Não se representa algo utilizando o movimento. O que surge primeiro é, justamente, o movimento. A partir dele é que surgem coisas com significados, sejam eles significados dramatúrgicos ou mesmo imagens interessantes. A confiança na atitude de “deixar de criar em cena” e no potencial criativo do movimento, sendo uma atitude difícil, porém essencial, não pode ser ignorada.

No Teatro Playback existe algo parecido. A confiança em que as histórias contadas pelas pessoas geram material para a cena é o que faz com que aconteça o espetáculo. Não há como entrar em cena com dramaturgias pré-estabelecidas. É preciso deixar a história conduzir as ações e narrativas.

Em resumo, tanto nos viewpoints como no Teatro Playback, o que importa é a confiança no espontâneo.

Sendo assim, nossa busca com a oficina da Sandra, com o projeto em si, é desenvolver nossa forma de fazer Teatro Playback. Como desenvolver? Com exercícios e jogos que tragam técnicas e experiências para nossos corpos, para nossas ações de maneira que fiquem orgânicas no trabalho. Além de criar coisas mais palpáveis, como por exemplo regras de cena.

Acabamos definindo “restrições” como o formato chamado “Raias”. Nele, nós três em cena definimos três linhas no palco, como as raias em uma piscina. Cada um de nós permanece nessas linhas e cria repetições com pontos chave da história do narrador. Neste formato não existe um protagonista definido, facilitando a quebra cronológica da história e o afloramento da poética do movimento. Enquanto exercício de viewpoints ele serve para a descoberta de possibilidades cênicas pelo acaso e de relações com os demais performers, mesmo sendo a atuação “individual”. Enquanto formato de Playback ele serve para criar imagens poéticas mais abstratas a partir do jogo entre nós três em cena, que deve ser estabelecido mais rapidamente do que durante o exercício. Isso faz com que possamos extrapolar as raias, adentrando no espaço do outro, se necessário. Lembrando que o que conta no Teatro Playback é a história, é o narrador. Nada tem sentido se o centro da cena não for a história contada. Por isso, em alguns momentos as regras, por mais formatadas que sejam, são feitas de borracha, para que sejam flexíveis durante a apresentação,

Outro tipo de restrição é a pré-definição de cenário. Quando vamos para o momento em que são contadas as histórias, colocamos os caixotes espalhados pelo palco a partir de um combinado prévio. Esse combinado muda a cada apresentação, assim não temos o mesmo cenário sempre. Essa restrição é como um problema que precisa ser resolvido e que nos move para uma atuação mais poética e menos realista. Ou seja, nunca partimos de um palco em branco, ele já possui desenhos que não foram pensados a partir da história. Quando uma cena acaba, os caixotes e panos utilizados nela permanecem neste quadro e são utilizados na próxima.

Com relação aos viewpoints, começamos a utilizá-los em cena, como a topografia, por exemplo, que traça “mapas” pelo espaço a partir do deslocamento. Uma caminhada em linha reta tem um poder dentro de uma determinada história e isso não precisa estar “representado”. Algo significativo surgirá a partir desse movimento simples. O significado e a poesia do movimento brotam como algo orgânico e dão força à história representada. É a confiança na ação enquanto disparadora de “vida” na cena.

Tudo isso gerou a desorganização de nosso repertório de atuação. No sentido de, novamente, “só fazer”. Acredito que isso seja possível devido a experiência que temos com o Teatro Playback. Para quem está iniciando, “só fazer” pode ser muito bobo e não explicativo, mas é no sentido de abrir demais a dramaturgia. O que pode ser um erro. Como estávamos muito tempo não nos permitindo extrapolar demais a narrativa cênica acabamos desorganizando-a, de forma moderada.

(Isso parece final de propaganda de bebida alcoólica: “Aprecie com moderação”. Mas arrematando, esse relato é sobre nosso trabalho, então não sei o quanto essas palavras servem para outras companhias de Teatro Playback. Por isso é bom deixar um pouco mais claro).

A organização ou “fazer o combinado” começa a partir da oficina da Barbara. Temos um potencial sonoro de qualidade. No entanto, não temos muita confiança em como utilizá-lo. Falta de confiança ou de conhecimento mesmo. Pois a música em sua estrutura é sistemática.

Na atuação, as ações têm intensidades de significado em diferentes níveis, que são sutis entre si, fracos e fortíssimos. Em uma atuação baseada no improviso, elas variam durante toda a apresentação, não representando sua perda. No canto ou nas sonoridades, as intensidades de significados são altamente contrastantes. Durante a improvisação sons executados aleatoriamente podem ser bonitos e significativos ou apenas desafinados ou ainda esvaziados de significado gerando uma quebra na relação da plateia com a cena.

Barbara nos trouxe formatos de experimentações sonoras. Por exemplo, o arpejo. Em uma determinada escala, como a de Dó. Fixamos as notas Dó, Mi, Sol e Dó (oitava). No acordeom as notas são tocadas e nós cantávamos junto. Em um determinado momento, podíamos improvisar de maneira isolada, mas sempre nas notas. Assim, enquanto o Vini fazia o improviso no acordeom, nós em cena brincávamos com as notas, repetindo-as, alongando-as, aumentando e diminuindo a intensidade. Assim surgiu um dos itens de nosso repertório sonoro, o arpejo. Simples, não?! Como não havíamos pensado nisso antes? Fizemos isso em cena várias vezes, mas de forma intuitiva. Agora é hora de organizar o repertório e fazer de forma consciente. Fazer o combinado.  Vou por aqui um áudio do combinado que surgiu a partir da oficina da Barbara.

Link para ouvir o áudio

Sistemático não é?!

Por fim, nosso desafio é amalgamar isso tudo, a desorganização da atuação com a organização das sonoridades. Enquanto uma nos faz só fazer e acreditar na poesia do movimento a outra nos faz construir um repertório que possa ser utilizado de forma mais consciente em cena. Isso é algo que não posso nem tentar prever neste texto. Depende do que irá acontecer nos próximos ensaios e nas próximas apresentações.

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