A escuta do sensível: voz e musicalidade com a Dionisos Teatro

Era domingo, mais ou menos meio dia, no galpão de ensaios da Dionisos e estávamos pensando em histórias para contar, para que pudéssemos experimentar os princípios de vocalidade e musicalidade que vínhamos preparando todo o fim de semana. Andréia, uma das atrizes do grupo, depois de algumas tentativas, para o exercício e me diz enfaticamente: “não podemos interpretar a história do outro, não podemos acrescentar detalhes ou nosso ponto de vista, temos que ser o mais fiéis possível às descrições, sensações e emoções daquele que narra”. Nesse momento, nessa fala, algo muito profundo se moveu em mim.

Não entendo especificamente de Teatro Playback e todo o meu aprendizado nesse campo tem vindo do contato com a Dionisos Teatro, em trabalhos sistemáticos de voz e musicalidade. A cada novo encontro eu mergulho com mais delicadeza e profundidade neste campo e observo estes atores e atrizes em um exercício da sensibilidade. Não somente uma sensibilidade formal, que seria associada ao treinamento técnico em corpo e voz de atores e atrizes disponíveis para a cena, mas uma sensibilidade humana, que trabalha com a escuta do outro como princípio motor da construção artística. Parece uma grande falta de atenção, mas eu que havia passado o final de semana inteiro construindo formas sonoras que dependiam de uma escuta aguçada daqueles atores e atrizes, só naquele momento compreendi o quão profunda era a qualidade da escuta daquelas pessoas, cuja tarefa em cena é promover o contato entre o narrador de sua história com a materialização da mesma. O ator e atriz como este mediador entre a escuta da voz do outro e materialização no espaço, na sonoridade e no corpo de narrativas íntimas.

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Verbalizar em voz alta, vocalizar as histórias de si, é um processo complexo. Transformar em som da voz, em palavra tornada corpo uma história que mora em nossa cabeça ou em nossa memória é um mecanismo poderoso. Vide o advento da psicanálise e o poder da narração de si em diversos processos de cura. A palavra proferida, a vocalização das ideias, não é uma atitude banal.

Talvez porque falemos muito, o tempo todo, é que temos perdido o sentido dessa corporificação de nossos pensamentos e sentimentos. Mas na situação do Teatro Playback, o narrador corporifica sua história em voz alta, oferecendo um pedaço de si para elenco e plateia; os atores e atrizes, em um exercício de escuta e atenção, dão forma, cor, textura, sonoridade e espacialidade a essas palavras recém proferidas, em um jogo especular. No caso da sonoridade, também se torna um mecanismo de eco: como ecoar a palavra, o sentimento e a ação do outro, buscando o mínimo de distorções possível? Como construir este arcabouço de sonoridades que se tornam uma trama abstrata e simbólica, como aprofundar um jogo de referenciais compartilhados entre seres humanos que envolve não somente o indivíduo mas a cultura e as construções sociais como um todo?

A música e a musicalidade são elementos abstratos do som que, quando concretizados, se mostram muito contundentes. Obviamente, em todo exercício social (como a música é, e nunca deixará de sê-lo) lançamos mão de formas preestabelecidas, de signos e símbolos compartilhados para arquitetar a materialização de uma ideia. Talvez o mais bonito do processo que vivemos juntos é a descoberta evidente de que o potencial sonoro e musical do grupo já está corporificado; são atores e atrizes com uma sensibilidade extrema para a escuta, e como se não bastasse, sentem um prazer enorme em vocalizar, em criar ideias e imagens sonoras e musicais. Esses dois ingredientes levaram a uma concretização quase imediata de sonoridades e mecanismos musicais que rapidamente tomaram forma e encheram de beleza aquele galpão nos dias de trabalho.

Confesso que muitas vezes me senti meio desnecessária. Vi que a partir de uma faísca pequena dada por mim, esse grupo já conseguia rapidamente transformar-se em fogueira viva e quente. Que talvez o processo tenha se dado todo ao contrário: achou-se que eu ia provocar processos novos, mas no final saí constatando que esse processo musical e sonoro na Dionisos Teatro já é forte e bem estabelecido, e que apenas a abertura e aceitação desse potencial já causaram uma rápida concretização sonora nas práticas do Playback.

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Eu, elemento catalisador, estava ali apenas para aproveitar a contundência daquelas vozes, instrumentos musicais e jogos sonoros. Tenho realmente uma profissão privilegiada: lidar com atores e atrizes sensíveis e abertos, que disponibilizam seus corpos-vozes para o exercício de ecoamento do outro. Esse elemento fundamental de relação entre elenco e narrador das histórias é que torna a prática musical, no contexto do Playback, tão bonita: porque é imbuída de um sentido, porque é uma ação concreta e compartilhada, é jogo vocal e sonoro para que se possa escutar não o virtuosismo de quem executa, mas sim a beleza de tornar viva a história do outro.

 

Barbara Biscaro

Desterro, 01 de outubro de 2018.

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