O som acionado

Por Clarice Siewert

As sonoridades no Teatro Playback têm muitas funções. Assim como na maioria dos grupos, na Dionisos elas estavam bem concentradas no trabalho do músico. É ele que auxilia o condutor no andamento, pontuação e organização da cena. Por ter um olhar de fora, consegue exercer essa função ritualística. Mas o músico é também produtor da cena, e, junto com os atores, improvisa e cria atmosferas, sonoplastia, trilha sonora, ambientação, trabalhando tons e texturas para colorir e “emocionar” a cena.

Mesmo antes desta oficina com a Barbara Biscaro, já vínhamos querendo inserir mais musicalidade nos atores, um maior trânsito entre o espaço da cena e o da música, expandindo possibilidades sonoras. Mas nos faltava caminhos para iniciar essa busca.

Na oficina “A Narrativa em Brecht”, nossa proposta inicial era dialogar com a experiência de Barbara acerca dos recursos narrativos de Brecht, principalmente sua proposta musical. Para ele, a música e o canto surgiam em cena para dar outra dimensão de um personagem, por exemplo. Se através do enredo o espectador era levado a achar que um personagem era “mal”, a música vinha e mostrava outra faceta. Ao trabalhar com não-cantores, Brecht também apostava num canto muito “falado”, ou seja, se os atores não chegavam em alguma nota, muita coisa era falada no meio. Dessa forma, a música vinha para ser sentido, ser enredo, ser ação. Isso traz muitas reflexões para o trabalho em Playback.

Mas nosso trabalho com Barbara acabou sendo, principalmente, a exploração de um cabedal de estruturas sonoras que nos instrumentalizaram para inserir sonoridades na cena. E é importante salientar a diferença entre sonoridade e música. Também inserir a música que engloba toda sua estrutura tonal, rítmica, melódica. Mas antes, inserir as sonoridades, que podem ser jogos sonoros, consciência de ritmo de cena, barulhos, camas sonoras… entendendo que tudo que é inserido deve ser algo como um som acionado, ou seja, som (ou silêncio, ou mesmo música) com função e sentido. Assim, como colocava a própria Barbara, se não saísse exatamente afinado ou no ritmo, isso já não seria o mais importante. Inserido na cena como uma força necessária, o som (ou silêncio, ou mesmo música), estaria completo em sua execução por produzir sentido.

Entre o que experimentamos com ela e o que estamos levando para a sala de ensaio, me ficaram algumas conquistas (relatadas segundo minha ótica e neste momento da pesquisa):

  • Aquecimento

Um tanto técnico, estamos desenvolvendo um padrão de aquecimento vocal (que é corporal) com exercícios para nos ajudar a, além de aquecer a voz, colocá-la “pra frente”, de forma que tenhamos uma emissão parecida da voz.

  • Unidade do som e seu “tamanho” 

Discutimos com a Barbara acerca da necessidade de dar conta dos mais diversos espaços numa apresentação de Teatro Playback. Algo que ela coloca como sendo importante é atentarmos para a unidade do som, ou seja, que é mais importante cantar ou emitir o som dentro de sua proposta, do que tentar fazê-lo crescer para dar conta de um espaço muito grande ou com acústica ruim. A potência do que emitimos não está necessariamente no seu volume. É melhor manter uma proposta consistente, do que desconfigurá-la para assegurar que todos ouçam bem.

  • Treino de arpejo

Entrar “automaticamente” nas notas de um arpejo é algo que se constrói com treino contínuo. Inserimos o exercício de cantar as notas de um arpejo em nosso ensaio, de forma que possamos treinar ouvido e afinação, e na hora da cena, a partir da proposta do músico ou de algum ator, possamos entrar nas melodias ou propostas sonoras com diferentes vozes.

  • Cenas mais musicais

Estamos experimentando inserir mais melodias em todas as formas e cenas. Isso inclui atores mais corajosos para cantar e maior exercício de ouvir as propostas do músico.

  • Novos instrumentos

Estamos inserindo um pedal de looping e microfone, perto do músico, para ser uma opção não só para o músico, mas para os atores.

  • Porosidade dos espaços de cena e música

Estamos buscando borrar a fronteira entre cena e espaço da música. Por vezes os atores vão até o espaço da música para fazer cena. Também o músico vai para a cena com seu acordeom, estabelecendo-se com mais um elemento.

  •  Novas formas

Estamos experimentando novas formas. Uma espécie de “metro cantado” está se formando. Nosso Tableau, que ainda não foi experimentado em apresentação, continua sendo explorado, agora também com proposta sonora vindo do condutor.

  • Dinâmicas musicais

Aos poucos, estamos buscando novas dinâmicas para as músicas que cantamos no início da apresentação.

 

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