Sobre o lugar da Música – tecnologia, escuta atenta e dramaturgia musical

Por Vinícius Ferreira

O Teatro Playback, atualmente, é um dos trabalhos que ocupa um lugar muito poderoso no campo da criação dentro do grupo que faço parte. Neste barco desde 2008, a Dionisos Teatro completa, este ano, 11 anos fazendo Teatro Playback, e eu completo este mesmo tempo ocupando o lugar da criação musical dentro do trabalho.

É importante contextualizar, porque nosso processo de criação passou por muitos momentos diferentes durante esses anos todos e, ano passado, a partir do nosso projeto de pesquisa de linguagem, o embrião do que vem acontecendo em nossas últimas apresentações foi gerado. Mergulhar na pesquisa é olhar pra trás pra apontar pra frente, esvaziar os vícios e preencher de novas texturas e experiências, foram duas oficinas com cargas distintas de conhecimento, mas que através do trabalho em cena geraram muito material para abastecer o repertório de criação do nosso Teatro Playback. Depois de 11 anos nos vimos preparados para derrubar algumas barreiras, confundir as regras do jogo, jamais negando, mas sim aprendendo a caminhar no espaço em que essa modalidade de fazer teatral instaura em quem a vivencia: o risco da queda.

Como músico improvisador, esse processo foi transformador. Uma das oficinas, dada pela Bárbara Biscaro, tratava sobre a música na cena e nos trouxe muitos mecanismos para incluir e diluir esse espaço de criação entre atuação e música. Uma das dificuldades apontadas pelos atores em nosso grupo é a de escutar a música, tenho certa desconfiança nessa colocação, porque sinto a conexão entre o que é tocado e o que é feito em cena, embora talvez essa percepção escape aos ouvidos dos atores, a sensibilidade aguçada nesses dias de trabalho já estava presente, em menor grau talvez, mas a sinergia sempre foi visível na troca entre a música e atuação. O que vejo é que durante a pesquisa o espaço de criação musical foi abraçado pela atuação, e desenvolvemos algumas ferramentas de treinamento, para estabelecer a confiança no desafio de criar a trilha sonora da apresentação de forma mais coletiva e diluída. Abaixo vou escrever sobre algumas dessas ferramentas:

Arpejos

Utilizando o acordeon, escolho um acorde, maior ou menor (evito acordes de tensão, mas podem ser utilizados se o grupo se sentir confortável em experimentar) cantamos o arpejo, nota por nota junto com o instrumento, em algum momento eu passo a improvisar no instrumento e as pessoas seguem improvisando usando as notas do arpejo e da escala do acorde escolhido. Paro de tocar o instrumento, ficam só as vozes, por vezes nesse momento conseguimos criar música em grupo, brincando com o ritmo e com as melodias cantadas. Volto a tocar o arpejo no acordeon, as pessoas também voltam a cantar o arpejo até que encerramos juntos. Esse exercício ajuda o grupo a cantar dentro de uma mesma escala e a experimentar as notas executadas no arpejo abrindo vozes e sugerindo possibilidades rítmicas.

Cânones

O cânone é um canto em grupo em que se divide de forma diferente o tempo em que cada pessoa começa. Existem diversos cânones diferentes. É um ótimo treinamento para a musicalidade do grupo porque exige uma concentração muito conectada com a que o jogo entre músico e atores precisa: manter sua voz e ao mesmo tempo ouvir o grupo, estabelecer a troca e mesmo fazendo coisas diferentes ter a noção de que é preciso manter firme sua parte e jogar com os outros.

Paisagem sonora/ Ritmos inventados

A ideia é parecida com a criação musical coletiva que o exercício do Arpejo proporciona, mas aqui trabalhamos com os sons de forma muito rítmica e menos melódica, sem tantas preocupações com a afinação e com as escalas. Propomos um som pra iniciarmos juntos, um chiado, ou algum som que se repita criando uma base sonora/rítmica e a partir disso começamos a incluir outros sons. A repetição coletiva do mesmo som no início é importante porque gera um espaço comum para incluir as outras propostas. Deixar-se afetar pelos sons, propor respostas a partir do que o outro faz, tomar decisões juntos do caminho que a sonoridade segue, tudo isso é explorado no exercício. Quando cantamos a história em cena* (uma forma que estamos experimentando) muitas vezes esse exercício é a base para iniciar a canção, ai os sons utilizados partem do contexto da história.

…………

Partindo desses exercícios, nós criamos uma forma que chamamos inicialmente de “Metro Cantado”, mas que coloco aqui como “História Cantada”. Acredito que cantar as histórias não é algo novo no Teatro Playback, mas definimos alguns caminhos que ajudam o grupo a fazer esta forma coletivamente.

*História Cantada

Está é uma forma nova pra gente que nasceu a partir do processo de pesquisa. Quando o condutor chama essa forma os atores vem para próximo do músico e se posicionam de um jeito que todos podem se ver e trocar. Eu proponho um tom, trabalho com o acordeon ou com o violão (quando experimentamos as primeiras vezes eu usava apenas o acordeon e a forma sempre começava com um arpejo, isso não foi mais necessário por conta do treinamento, agora já conseguimos cantar na escala a partir do tom proposto pelo instrumento). Às vezes antes mesmo do tom ser proposto, começamos a criar uma paisagem sonora/rítmica da história, isso ajuda a levantar material para a canção e cria pontos de retorno, esses pontos são importantes para o arco da forma. Ex.: Fizemos uma história em que o narrador havia tido seu relógio roubado, no início propomos o “Tic Tac” do relógio e este mesmo som apareceu outras vezes no meio da canção e também serviu para marcar o final da cena. O que fazemos também é propor uma frase cantada que se repita, como o refrão de uma música, ter esse refrão na voz de todos também ajuda na condução da canção. A letra da frase pode ser poética ou mais direta, mas é bacana pensar que ela precisa principalmente ser de fácil entendimento para quem assiste e para quem canta, assim a repetição da melodia cantada fica mais tranquila de ser executada. Também não nos limitamos a apenas cantar, se necessário algumas partes podem ser narradas e o jogo cênico, que nesta forma fica em função da canção, pode fortalecer muito a cena, quase como a coreografia da canção criada.

Função da música e dramaturgia sonora

No Teatro Playback o lugar da música tem uma função muito importante para o ritual. Ela atua como elemento de ligação entre a fala do condutor e o início da cena, como sonoplastia, trilha sonora, fazendo a voz de algum personagem, trazendo alguma canção ou sonoridade que faz parte do contexto em que a história está inserida, entre outras possibilidades. Durante muito tempo eu sempre trabalhei nesse lugar de forma muito empírica, atravessado pelos sentimentos que a história trazia e também tentando sempre me conectar com o que os atores estão fazendo. A música é muito poderosa, uma melodia forte conduz todo o andamento da cena e há algum tempo, com o feedback do grupo, venho aprendendo a ter escolhas mais racionais na inclusão das sonoridades. O escritor Lívio Tratemberg fala sobre isso quando define os conceitos de procedimento e clichê em seu livro “Música de Cena”:

O procedimento é um instrumento pelo qual o compositor realiza a ideia criativa na linguagem, a partir de elementos que são criados tendo em vista um objetivo original. Desempenham funções, sejam elas positivas ou negativas. O clichê é a articulação simbólica de elementos que resultam num alto grau de reconhecibilidade e redundância e no esvaziamento do objeto como elemento dinâmico. […] O uso do clichê portanto imobiliza de certa forma os objetos. Mas no entanto provoca uma dinâmica no processo de referencialidade ou comparação entre os diferentes elementos em jogo.

(TRATEMBERG,2008, pág. 39)

Com o entendimento destes conceitos e tendo muitas experiências práticas como músico improvisador, as possibilidades na criação sonora dentro do ritual do Teatro Playback ficaram maiores no trabalho que fazemos. Saindo da lógica de apenas reforçar o que está sendo feito na cena e praticando o lugar da proposição de elementos que contribuam para a dramaturgia da encenação, usando muito o apoio do que está posto, mas também buscando o contraste e outras vezes sonoridades que fujam desses dois lugares mas que contribuam para o universo sonoro da história. Aprender a lidar com o silêncio como potência cênica também tem sido importante.

Durante nosso processo de pesquisa eu me vi num lugar em que, além de propor, eu podia me deixar tocar pelo que os atores propunham musicalmente, para que a partir desse jogo, enquanto músico eu pudesse fortalecer as propostas deles e criar um espaço mais democrático da ambientação sonora e também mais fortalecido como trilha para cena, porque assim se dilui o local da música na perspectiva do espectador. Um dos exercícios que pratico para que consiga encaixar as tonalidades e superar as dificuldades técnicas, é propor sutilmente um acorde que possibilite a entrada das vozes caso os atores queiram cantar, para fazer isso observo muito a cena e a reação dos atores em relação ao que está acontecendo, também observo qual dos integrantes está mais disposto a cantar durante a cena e levo em consideração as vozes e o campo de frequência que quem vai cantar está mais acostumado para propor o tom, isso tudo é muito subjetivo, várias vezes não sai como o planejado, mas ter esse cuidado fortalece muito a musicalidade do espetáculo.

Depois de estabelecido a proposta dos atores eu busco encontrar a melodia por eles criada, tanto reforçando ela no canto, quanto procurando as notas no instrumento (violão ou acordeom) e a partir daí construímos juntos. Não existe uma receita aqui, apenas um estado de afetação elevado em que tudo que se propõe em cena pode influenciar na musicalidade da história. Acredito que o tempo de trabalho deste elenco nos fortalece muito enquanto playbackers, as nuances e formas de agir de cada um já estão incorporadas nas trocas, essa condição nos deixa mais confortáveis em assumir os riscos e em propor e abraçar as ideias musicais que surgem. Um jogo de aceitar a oferta do outro e principalmente de aceitar abandonar a sua oferta a qualquer momento.

A tecnologia a serviço da cena

O set musical de nosso Teatro Playback é composto por instrumentos de efeitos e percussão: chocalhos de diferentes timbres, caixixi, pandeiro, tambor, apitos de pássaros, claves e instrumentos melódicos e harmônicos: violão, acordeon, harmônica, flauta, voz.

Como ferramenta para ampliar as possibilidades musicais, durante nosso processo de pesquisa, incluímos um pedal de looping no setup da música. O pedal de looping pode ter várias características, mas basicamente ele é um repetidor de áudio fiel dos elementos a ele conectados. Dentro do universo da música ele é muito utilizado em apresentações solos em que o artista faz uma base e vai sobrepondo camadas. Em nossa apresentação eu utilizo um pedal bem simples da marca Boss, modelo RC1, controlando o volume com os pés no botão do próprio pedal. Costumo utilizar poucas sobreposições quando o uso para gravar o violão, ou algum efeito de percussão, isso muito por conta da velocidade e precisão necessária para incluir essas sobreposições organicamente na cena. Este pedal está conectado a uma mesa de som, em que, inicialmente o violão e um microfone para os atores e outro para mim estavam conectados. Em nossos ensaios estamos no processo de experimentação dessa tecnologia pelos atores, com o microfone à disposição e comigo definindo o corte do looping temos feito algumas coisas bacanas. A voz no microfone amplia e desloca o lugar da voz dos atores, esse é um terreno que deve ser percorrido com cuidado, mas que pode conceber muita força para a encenação dependendo da forma que for utilizado. Nesse espaço seguimos caminhando e aprendendo. É importante ter claro que a tecnologia deve estar a serviço da cena e dependendo do que acontece na apresentação ela nem é utilizada, quando nos obrigamos a incluir este elemento, ele pode muito facilmente atravancar a musicalidade da encenação, engessado as possibilidades dos atores e do músico. Menos é mais, sempre.

A voz do narrador como elemento dramatúrgico

Recentemente, durante uma das apresentações de demonstração do processo de pesquisa, aconteceu algo que não estava previamente planejado. Eu havia preparado o microfone sem fio para os atores e percebemos que precisávamos de um microfone para o narrador, esse microfone dos atores ficou então à disposição dos narradores durante a apresentação. Numa das histórias um menino contava sobre sua avó já falecida e a saudade que ele tinha dela, enquanto o Silvestre fazia a condução me dei conta que o microfone do narrador estava conectado ao pedal de looping e que eu poderia gravar sua voz, zerando o volume do pedal, assim o sample captado não sairia nas caixas de som, fiquei aguardando o momento em que poderia fazer a captação da voz. Nosso condutor costuma fazer algumas perguntas no fim da entrevista , perguntas como “Que elemento da natureza essa história/pessoa seria?” ou “Qual nome você daria para essa história?”, lembro que ele perguntou para o menino qual elemento da natureza a avó dele era e eu captei a resposta do narrador no pedal “A minha vó? A minha vó era o vento”. Essa frase ficou guardada em silêncio no pedal e a forma escolhida para a encenação foi “História Cantada”. Fizemos o jogo inicial com as sonoridades e criamos a canção, quando percebi que a cena caminhava para o final, comecei a aumentar o volume do pedal de looping e a frase captada com a voz do menino passou a ser parte daquela canção, cessamos o canto e a voz dele foi quem terminou a encenação. Interessante pensar que a partir do acaso e tendo a tecnologia disponível foi possível devolver para o narrador uma história que continha sua própria voz, de alguma maneira ele pode receber de volta, além da nossa proposta cênica, a poesia que a frase dele se transformou ao ser repetida na cena. Em outra apresentação, já consciente dessa possibilidade de interação, durante uma história em que a narradora falava sobre um projeto social em que trabalhou com crianças em situação de risco que eram desencorajadas a aparecem em fotos, sabendo disso ela teve a ideia de que cada criança tivesse seu álbum de fotografias com as suas imagens para que elas pudessem contar ali as suas histórias. Durante a entrevista me mantive atento para uma boa oportunidade de captar a voz da narradora sem cortar nenhum pedaço, ao fim da história, quando ela contava sobre uma das meninas que, durante a festa de fim de ano, veio com o álbum e uma caneta e pediu para que ela escreve uma mensagem, neste momento nosso condutor perguntou o que ela havia escrito, acionei o pedal e captei a resposta da narradora: “Não, ela me pediu pra escrever ‘Essa é a minha história’”. A forma escolhida foi a Raia, esta é uma forma narrativa nova, nela os atores utilizam muito os conceitos de viewpoints e criam interações e repetições utilizando os elementos da história e se afetando uns pelos outros. Percebendo o final da cena eu subi a voz da narradora, os atores começaram primeiro a interagir com a frase captada, repetindo entre eles o que a narradora dizia, depois foram silenciando e seguiram com os movimentos, criando uma coreografia simples, composta pelos corpos e tendo a frase dita pela narradora como trilha sonora. Este foi um momento muito forte da apresentação, a narradora foi pega de surpresa ao ouvir sua voz em cena.

Como playbacker vejo muita potência nessas nossas descobertas da utilização da voz do narrador em cena, que talvez até já tenha sido feita em outro momento e por outras Cias. de Teatro Playback pelo mundo ao longo desses 40 anos de existência. Devolver para o expectador e principalmente para o narrador a sua própria voz como parte integrante da encenação dilui ainda mais a linha entre performers e público e também entre o que é música e o que é encenação. Nesse sentido, o uso de forma orgânica da tecnologia contribui para o fortalecimento do ritual. É preciso entender que quem aperta o botão somos nós e a ferramenta deve estar a serviço da encenação. Sensibilidade, escuta atenta, afeto e respeito com as histórias são premissas antigas no Teatro Playback e continuam fundamentais para quem quer experimentar essas experiências em suas vivências.

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O som acionado

Por Clarice Siewert

As sonoridades no Teatro Playback têm muitas funções. Assim como na maioria dos grupos, na Dionisos elas estavam bem concentradas no trabalho do músico. É ele que auxilia o condutor no andamento, pontuação e organização da cena. Por ter um olhar de fora, consegue exercer essa função ritualística. Mas o músico é também produtor da cena, e, junto com os atores, improvisa e cria atmosferas, sonoplastia, trilha sonora, ambientação, trabalhando tons e texturas para colorir e “emocionar” a cena.

Mesmo antes desta oficina com a Barbara Biscaro, já vínhamos querendo inserir mais musicalidade nos atores, um maior trânsito entre o espaço da cena e o da música, expandindo possibilidades sonoras. Mas nos faltava caminhos para iniciar essa busca.

Na oficina “A Narrativa em Brecht”, nossa proposta inicial era dialogar com a experiência de Barbara acerca dos recursos narrativos de Brecht, principalmente sua proposta musical. Para ele, a música e o canto surgiam em cena para dar outra dimensão de um personagem, por exemplo. Se através do enredo o espectador era levado a achar que um personagem era “mal”, a música vinha e mostrava outra faceta. Ao trabalhar com não-cantores, Brecht também apostava num canto muito “falado”, ou seja, se os atores não chegavam em alguma nota, muita coisa era falada no meio. Dessa forma, a música vinha para ser sentido, ser enredo, ser ação. Isso traz muitas reflexões para o trabalho em Playback.

Mas nosso trabalho com Barbara acabou sendo, principalmente, a exploração de um cabedal de estruturas sonoras que nos instrumentalizaram para inserir sonoridades na cena. E é importante salientar a diferença entre sonoridade e música. Também inserir a música que engloba toda sua estrutura tonal, rítmica, melódica. Mas antes, inserir as sonoridades, que podem ser jogos sonoros, consciência de ritmo de cena, barulhos, camas sonoras… entendendo que tudo que é inserido deve ser algo como um som acionado, ou seja, som (ou silêncio, ou mesmo música) com função e sentido. Assim, como colocava a própria Barbara, se não saísse exatamente afinado ou no ritmo, isso já não seria o mais importante. Inserido na cena como uma força necessária, o som (ou silêncio, ou mesmo música), estaria completo em sua execução por produzir sentido.

Entre o que experimentamos com ela e o que estamos levando para a sala de ensaio, me ficaram algumas conquistas (relatadas segundo minha ótica e neste momento da pesquisa):

  • Aquecimento

Um tanto técnico, estamos desenvolvendo um padrão de aquecimento vocal (que é corporal) com exercícios para nos ajudar a, além de aquecer a voz, colocá-la “pra frente”, de forma que tenhamos uma emissão parecida da voz.

  • Unidade do som e seu “tamanho” 

Discutimos com a Barbara acerca da necessidade de dar conta dos mais diversos espaços numa apresentação de Teatro Playback. Algo que ela coloca como sendo importante é atentarmos para a unidade do som, ou seja, que é mais importante cantar ou emitir o som dentro de sua proposta, do que tentar fazê-lo crescer para dar conta de um espaço muito grande ou com acústica ruim. A potência do que emitimos não está necessariamente no seu volume. É melhor manter uma proposta consistente, do que desconfigurá-la para assegurar que todos ouçam bem.

  • Treino de arpejo

Entrar “automaticamente” nas notas de um arpejo é algo que se constrói com treino contínuo. Inserimos o exercício de cantar as notas de um arpejo em nosso ensaio, de forma que possamos treinar ouvido e afinação, e na hora da cena, a partir da proposta do músico ou de algum ator, possamos entrar nas melodias ou propostas sonoras com diferentes vozes.

  • Cenas mais musicais

Estamos experimentando inserir mais melodias em todas as formas e cenas. Isso inclui atores mais corajosos para cantar e maior exercício de ouvir as propostas do músico.

  • Novos instrumentos

Estamos inserindo um pedal de looping e microfone, perto do músico, para ser uma opção não só para o músico, mas para os atores.

  • Porosidade dos espaços de cena e música

Estamos buscando borrar a fronteira entre cena e espaço da música. Por vezes os atores vão até o espaço da música para fazer cena. Também o músico vai para a cena com seu acordeom, estabelecendo-se com mais um elemento.

  •  Novas formas

Estamos experimentando novas formas. Uma espécie de “metro cantado” está se formando. Nosso Tableau, que ainda não foi experimentado em apresentação, continua sendo explorado, agora também com proposta sonora vindo do condutor.

  • Dinâmicas musicais

Aos poucos, estamos buscando novas dinâmicas para as músicas que cantamos no início da apresentação.

 

A escuta do sensível: voz e musicalidade com a Dionisos Teatro

Era domingo, mais ou menos meio dia, no galpão de ensaios da Dionisos e estávamos pensando em histórias para contar, para que pudéssemos experimentar os princípios de vocalidade e musicalidade que vínhamos preparando todo o fim de semana. Andréia, uma das atrizes do grupo, depois de algumas tentativas, para o exercício e me diz enfaticamente: “não podemos interpretar a história do outro, não podemos acrescentar detalhes ou nosso ponto de vista, temos que ser o mais fiéis possível às descrições, sensações e emoções daquele que narra”. Nesse momento, nessa fala, algo muito profundo se moveu em mim.

Não entendo especificamente de Teatro Playback e todo o meu aprendizado nesse campo tem vindo do contato com a Dionisos Teatro, em trabalhos sistemáticos de voz e musicalidade. A cada novo encontro eu mergulho com mais delicadeza e profundidade neste campo e observo estes atores e atrizes em um exercício da sensibilidade. Não somente uma sensibilidade formal, que seria associada ao treinamento técnico em corpo e voz de atores e atrizes disponíveis para a cena, mas uma sensibilidade humana, que trabalha com a escuta do outro como princípio motor da construção artística. Parece uma grande falta de atenção, mas eu que havia passado o final de semana inteiro construindo formas sonoras que dependiam de uma escuta aguçada daqueles atores e atrizes, só naquele momento compreendi o quão profunda era a qualidade da escuta daquelas pessoas, cuja tarefa em cena é promover o contato entre o narrador de sua história com a materialização da mesma. O ator e atriz como este mediador entre a escuta da voz do outro e materialização no espaço, na sonoridade e no corpo de narrativas íntimas.

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Verbalizar em voz alta, vocalizar as histórias de si, é um processo complexo. Transformar em som da voz, em palavra tornada corpo uma história que mora em nossa cabeça ou em nossa memória é um mecanismo poderoso. Vide o advento da psicanálise e o poder da narração de si em diversos processos de cura. A palavra proferida, a vocalização das ideias, não é uma atitude banal.

Talvez porque falemos muito, o tempo todo, é que temos perdido o sentido dessa corporificação de nossos pensamentos e sentimentos. Mas na situação do Teatro Playback, o narrador corporifica sua história em voz alta, oferecendo um pedaço de si para elenco e plateia; os atores e atrizes, em um exercício de escuta e atenção, dão forma, cor, textura, sonoridade e espacialidade a essas palavras recém proferidas, em um jogo especular. No caso da sonoridade, também se torna um mecanismo de eco: como ecoar a palavra, o sentimento e a ação do outro, buscando o mínimo de distorções possível? Como construir este arcabouço de sonoridades que se tornam uma trama abstrata e simbólica, como aprofundar um jogo de referenciais compartilhados entre seres humanos que envolve não somente o indivíduo mas a cultura e as construções sociais como um todo?

A música e a musicalidade são elementos abstratos do som que, quando concretizados, se mostram muito contundentes. Obviamente, em todo exercício social (como a música é, e nunca deixará de sê-lo) lançamos mão de formas preestabelecidas, de signos e símbolos compartilhados para arquitetar a materialização de uma ideia. Talvez o mais bonito do processo que vivemos juntos é a descoberta evidente de que o potencial sonoro e musical do grupo já está corporificado; são atores e atrizes com uma sensibilidade extrema para a escuta, e como se não bastasse, sentem um prazer enorme em vocalizar, em criar ideias e imagens sonoras e musicais. Esses dois ingredientes levaram a uma concretização quase imediata de sonoridades e mecanismos musicais que rapidamente tomaram forma e encheram de beleza aquele galpão nos dias de trabalho.

Confesso que muitas vezes me senti meio desnecessária. Vi que a partir de uma faísca pequena dada por mim, esse grupo já conseguia rapidamente transformar-se em fogueira viva e quente. Que talvez o processo tenha se dado todo ao contrário: achou-se que eu ia provocar processos novos, mas no final saí constatando que esse processo musical e sonoro na Dionisos Teatro já é forte e bem estabelecido, e que apenas a abertura e aceitação desse potencial já causaram uma rápida concretização sonora nas práticas do Playback.

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Eu, elemento catalisador, estava ali apenas para aproveitar a contundência daquelas vozes, instrumentos musicais e jogos sonoros. Tenho realmente uma profissão privilegiada: lidar com atores e atrizes sensíveis e abertos, que disponibilizam seus corpos-vozes para o exercício de ecoamento do outro. Esse elemento fundamental de relação entre elenco e narrador das histórias é que torna a prática musical, no contexto do Playback, tão bonita: porque é imbuída de um sentido, porque é uma ação concreta e compartilhada, é jogo vocal e sonoro para que se possa escutar não o virtuosismo de quem executa, mas sim a beleza de tornar viva a história do outro.

 

Barbara Biscaro

Desterro, 01 de outubro de 2018.

“Só fazer” e “fazer o combinado”

Libertação de “representações” e criação de repertórios sonoros no Teatro Playback.

por Eduardo Campos

 

Escrevi boa parte desse texto durante a oficina de corpo com a Sandra Meyer e não consegui terminar. Parecia faltar alguma coisa nas minhas ideias. Agora, depois da oficina com a Barbara Biscaro, me senti inspirado para terminá-lo e acredito ter descoberto o que faltava: a mistura, a amálgama, palavra utilizada várias vezes pela Barbara.

O desafio no nosso projeto é pensar em novas formas, lapidar as técnicas que já existem e reforçar o caráter artístico do Teatro Playback. Sendo assim, as oficinas que fizemos vêm nesse sentido. Não são as oficineiras que devem trazer algo que possamos utilizar no trabalho, somos nós que temos que fazer a ligação. Então, durante os encontros com elas, a cabeça estava sempre conectada em como utilizar exercício ‘a’ ou ‘b’ no espetáculo. Em alguns momentos até “forçamos a barra” para utilizar determinado exercício em cena, criando cenas completamente musicais, por exemplo, chegando a extrapolar o limite do que seria aceitável se estivéssemos em uma apresentação

A partir daqui vou misturar as coisas que havia escrito há um mês sobre a oficina da Sandra com as coisas que estão na cabeça sobre a oficina da Barbara. Aliás, é interessante a mistura porque as duas coisas são diferentes na essência. Sandra nos trouxe uma possibilidade de abrir a atuação de forma poética, confiando no poder do movimento e da ação. E Barbara nos trouxe a sistematização, a construção de formatos fixos a serem utilizados de forma mais conscientes em cena. É mais ou menos poder “só fazer” com a atuação e “fazer o combinado” na hora de usar a voz.

O trabalho de corpo

O trabalho que fizemos com a Sandra nos fez pensar em como resolver algumas questões que nos incomoda no Teatro Playback. São preocupações de como criar ações poéticas no lugar de ações realistas. Não que as ações realistas sejam um problema, mas sim como enriquecer poeticamente as cenas no Teatro Playback.

Os exercícios vieram a partir de briefing da Clarice, explicando o projeto e o que desejávamos com a oficina dela. Sandra disse ter se informado sobre o Teatro Playback a partir de textos da Clarice e do pouco que já havia visto. Assim ela nos trouxe exercícios que são utilizados no viewpoints (pontos de vista) criado por Mary Overlie e expandido por Anne Bogart e Tina Landau.

Nesse método de criação, as ações são as geradoras de “vida” na cena. Não se representa algo utilizando o movimento. O que surge primeiro é, justamente, o movimento. A partir dele é que surgem coisas com significados, sejam eles significados dramatúrgicos ou mesmo imagens interessantes. A confiança na atitude de “deixar de criar em cena” e no potencial criativo do movimento, sendo uma atitude difícil, porém essencial, não pode ser ignorada.

No Teatro Playback existe algo parecido. A confiança em que as histórias contadas pelas pessoas geram material para a cena é o que faz com que aconteça o espetáculo. Não há como entrar em cena com dramaturgias pré-estabelecidas. É preciso deixar a história conduzir as ações e narrativas.

Em resumo, tanto nos viewpoints como no Teatro Playback, o que importa é a confiança no espontâneo.

Sendo assim, nossa busca com a oficina da Sandra, com o projeto em si, é desenvolver nossa forma de fazer Teatro Playback. Como desenvolver? Com exercícios e jogos que tragam técnicas e experiências para nossos corpos, para nossas ações de maneira que fiquem orgânicas no trabalho. Além de criar coisas mais palpáveis, como por exemplo regras de cena.

Acabamos definindo “restrições” como o formato chamado “Raias”. Nele, nós três em cena definimos três linhas no palco, como as raias em uma piscina. Cada um de nós permanece nessas linhas e cria repetições com pontos chave da história do narrador. Neste formato não existe um protagonista definido, facilitando a quebra cronológica da história e o afloramento da poética do movimento. Enquanto exercício de viewpoints ele serve para a descoberta de possibilidades cênicas pelo acaso e de relações com os demais performers, mesmo sendo a atuação “individual”. Enquanto formato de Playback ele serve para criar imagens poéticas mais abstratas a partir do jogo entre nós três em cena, que deve ser estabelecido mais rapidamente do que durante o exercício. Isso faz com que possamos extrapolar as raias, adentrando no espaço do outro, se necessário. Lembrando que o que conta no Teatro Playback é a história, é o narrador. Nada tem sentido se o centro da cena não for a história contada. Por isso, em alguns momentos as regras, por mais formatadas que sejam, são feitas de borracha, para que sejam flexíveis durante a apresentação,

Outro tipo de restrição é a pré-definição de cenário. Quando vamos para o momento em que são contadas as histórias, colocamos os caixotes espalhados pelo palco a partir de um combinado prévio. Esse combinado muda a cada apresentação, assim não temos o mesmo cenário sempre. Essa restrição é como um problema que precisa ser resolvido e que nos move para uma atuação mais poética e menos realista. Ou seja, nunca partimos de um palco em branco, ele já possui desenhos que não foram pensados a partir da história. Quando uma cena acaba, os caixotes e panos utilizados nela permanecem neste quadro e são utilizados na próxima.

Com relação aos viewpoints, começamos a utilizá-los em cena, como a topografia, por exemplo, que traça “mapas” pelo espaço a partir do deslocamento. Uma caminhada em linha reta tem um poder dentro de uma determinada história e isso não precisa estar “representado”. Algo significativo surgirá a partir desse movimento simples. O significado e a poesia do movimento brotam como algo orgânico e dão força à história representada. É a confiança na ação enquanto disparadora de “vida” na cena.

Tudo isso gerou a desorganização de nosso repertório de atuação. No sentido de, novamente, “só fazer”. Acredito que isso seja possível devido a experiência que temos com o Teatro Playback. Para quem está iniciando, “só fazer” pode ser muito bobo e não explicativo, mas é no sentido de abrir demais a dramaturgia. O que pode ser um erro. Como estávamos muito tempo não nos permitindo extrapolar demais a narrativa cênica acabamos desorganizando-a, de forma moderada.

(Isso parece final de propaganda de bebida alcoólica: “Aprecie com moderação”. Mas arrematando, esse relato é sobre nosso trabalho, então não sei o quanto essas palavras servem para outras companhias de Teatro Playback. Por isso é bom deixar um pouco mais claro).

A organização ou “fazer o combinado” começa a partir da oficina da Barbara. Temos um potencial sonoro de qualidade. No entanto, não temos muita confiança em como utilizá-lo. Falta de confiança ou de conhecimento mesmo. Pois a música em sua estrutura é sistemática.

Na atuação, as ações têm intensidades de significado em diferentes níveis, que são sutis entre si, fracos e fortíssimos. Em uma atuação baseada no improviso, elas variam durante toda a apresentação, não representando sua perda. No canto ou nas sonoridades, as intensidades de significados são altamente contrastantes. Durante a improvisação sons executados aleatoriamente podem ser bonitos e significativos ou apenas desafinados ou ainda esvaziados de significado gerando uma quebra na relação da plateia com a cena.

Barbara nos trouxe formatos de experimentações sonoras. Por exemplo, o arpejo. Em uma determinada escala, como a de Dó. Fixamos as notas Dó, Mi, Sol e Dó (oitava). No acordeom as notas são tocadas e nós cantávamos junto. Em um determinado momento, podíamos improvisar de maneira isolada, mas sempre nas notas. Assim, enquanto o Vini fazia o improviso no acordeom, nós em cena brincávamos com as notas, repetindo-as, alongando-as, aumentando e diminuindo a intensidade. Assim surgiu um dos itens de nosso repertório sonoro, o arpejo. Simples, não?! Como não havíamos pensado nisso antes? Fizemos isso em cena várias vezes, mas de forma intuitiva. Agora é hora de organizar o repertório e fazer de forma consciente. Fazer o combinado.  Vou por aqui um áudio do combinado que surgiu a partir da oficina da Barbara.

Link para ouvir o áudio

Sistemático não é?!

Por fim, nosso desafio é amalgamar isso tudo, a desorganização da atuação com a organização das sonoridades. Enquanto uma nos faz só fazer e acreditar na poesia do movimento a outra nos faz construir um repertório que possa ser utilizado de forma mais consciente em cena. Isso é algo que não posso nem tentar prever neste texto. Depende do que irá acontecer nos próximos ensaios e nas próximas apresentações.

Relatos de Ensaio – Abrindo espaços

03 de setembro de 2018 

 Por Clarice Steil Siewert 

Depois de nossa primeira oficina “A Poética do Corpo”, fomos para a sala de ensaio fazer as pontes entre o que vimos e experenciamos e nossa prática em Teatro Playback. 

Como procedimento de trabalho, decidimos elencar algumas propostas de experimentação que tínhamos, para depois organizá-las para a demonstração dos dias 30/08 e 01/09. 

 

Assim, decidimos experimentar: 

  1. O exercício da Raia (do Viewpoints) como uma possibilidade de forma curta 
  2. Ampliação do uso do espaço, usando composições em relação à ele 
  3. Exercício do tableau como treino para o início do uso da forma curta “Tableau Stories  
  4. Uso de algumas regras do Viewpoints nas cenas livres 
  5. Modificação na disposição dos elementos cênicos 
  6. Maior fluidez na cena final 

 

 

Nem todas essas mudanças estavam nos nossos planos iniciais. Foram ocorrendo conforme fomos descobrindo as possibilidades. Outras talvez eu tenha negligenciado neste relato, e outras, ainda, são embriões que aguardam seu tempo de maturação.  

Para cada proposta, a gente retomava um pouco do que havíamos feito e como imaginávamos que poderia contribuir em algum aspecto de uma apresentação de Teatro Playback. Mas era o chão de ensaio que realmente podia nos dar respostas. Íamos experimentando, discutíamos quais regras ficavam, quais saíam, que tipo de material narrativo cada forma dava conta. 

Fechamos algumas propostas para realizar nossas duas primeiras demonstrações de trabalho. No dia 30/08, recebemos pais, alunos e profissionais do Centro de Transformação Arte para Todos. No dia 01/09, recebemos alunos do programa de teatro da Univille, integrantes do DeMães Teatro Playback e do grupo de teatro da Onda Dura.

 

Depois dessas experiências, descrevo um pouco melhor como ficaram nossas propostas: 

1. Nas duas apresentações utilizamos nossa nova forma curta, que chamamos “Raias”. Na verdade, ela é não é tão curta, é mais como uma forma narrativa como a “Narrativa em V” e “Metro Quadrado”. Inspirado no exercício “Raia”, do Viewpoints, ela mantém algumas regras deste, mas abre-se para uma maior relação entre os atores, e para pequenas ações, de forma a contemplar a história/sentimento contado. Cada ator, agindo em sua raia (como a raia de uma piscina), simultaneamente, joga com o espaço e com os outros integrantes, podendo andar, parar, saltar, falar/cantar, cair, parar. Não há personagens estabelecidos. Eles vão aparecendo como flashes nas ações de todos os atores. Assim como a cronologia da história também não é necessariamente seguida. Os acontecimentos vão aparecendo em fragmentos. Estamos entendendo que é uma boa forma para colocar em cena alguma pequena história não muito linear, com muitos sentimentos atrelados, algo que ainda esteja presente no narrador. O tempo nos dirá o quanto essa forma pode ainda evoluir e como pode ser melhor aproveitada. 

 

2.  Decidimos levar mais em consideração nosso espaço de atuação. No Galpão da AJOTE, por exemplo, local das demonstrações, passamos a usar um maior espaço para a encenação, incluindo inclusive a parede ao fundo. Se os atores sentirem necessidade, é possível ir para a plateia, para a coxia, para qualquer lugar. A conexão com a plateia e o narrador não se dá só pela visão. Também buscando compor com o espaço, a apresentação inicial de nossos sentimentos saiu da base fixa dos caixotes (que iniciam dispostos no centro da cena)Cada cena pode ser “puxada” para onde o primeiro ator quiser. As esculturas fluidas vão sendo feitas em diferentes lugares. Por vezes, ela pode até “explodir”, virando uma forma compositiva com o espaço. 

 

3. Ensaiamos diversos formatos para por em prática a forma “Tableau stories”, a qual chamamos “Tableau”. Acabamos não usando-a em nenhuma das demonstrações. Mas, por enquanto, ela é feita com os atores em cima dos caixotes, fazendo as imagens a partir das frases ditas pelo condutor.  

 

4. Para a encenação das histórias em livre improvisação, estamos buscando sair cada vez mais da encenação realista. Para isso, prestar atenção à topografia, à relação ao corpo do outro, às ações de andar, cair, saltar, parar, por exemplo, nos tem dado material para construir cenas mais poéticas. É ainda um grande desafio, esticar a corda sem que arrebente… jogar com as imagens, sons, formas, corpos, sem perder a conexão com a história e seu narrador. É um pouco como se os personagens da história entrassem jogando Viewpoints, mas podendo assumir outro jogo a qualquer momento. 

 

5. Modificamos nosso ritual. Entre uma cena e outra, no lugar de arrumar as coisas e nos colocarmos sempre no mesmo local, vamos agora deixando as coisas como estão. Uma forma simbólica das histórias também se conectarem entre si. Vamos lidando com um “novo” palco a cada vez, atuando em tempo real com as coisas que ali estão. Ainda mantemos a “montagem”, para a improvisação de cenas, e o ator protagonista monta a cena a partir do que já está. Tivemos um retorno positivo desta mudança, de uma sensação de maior leveza, menos rigidez, sem perder a limpeza e os códigos do Playback. 

 

6. Nossa forma final era a “Bricolage”. “Afrouxamos” o que fazíamos. Andamos mais pelo espaço. A cada nova história a ser relembrada, um ator “puxa” os outros, descolando-se um pouco. O Vini vem com seu acordeom para a cena, e torna-se mais um elemento para nos conectarmos. Passamos por todos os narradores, e continuamos terminando com a música “Água Maria da Terra 

 

Depois de dez anos fazendo Teatro Playback, nos propomos a mergulhar em um projeto de pesquisa. No teatro, dizemos  que é preciso conhecer as regras para poder quebrá-las. Acho que pelo nosso profundo respeito ao Teatro Playback, estamos buscando justamente “esticá-lo”, “tencioná-lo”, não sei se quebrando algumas regras, mas pelo menos, revendo-asNão é negar o qué, o que já fomos… mas é um desejo de abrir maiores espaços de criação, afrouxando limites e experimentando. 

 

Sobre o ofício de ensinar: Carta para Sandra Meyer.

 

Joinville, 26 de agosto de 2018. 

 Cara colega Sandra Meyer, 

 O ofício do saber ensinar é desafio, constante nos tempos atuais, em que, a todo custo, tentam impingir à educação tecnologias novidadeiras, cheias de promessas que substituem, ou quase, a presença física do Professor. Não recusando essas formas, mas colocando-as no seu devido lugar, venho refletir um pouco sobre o ato de ensinar, à luz da tua prática na oficina ministrada para a companhia Dionisos Teatro. Desafio de olhar diferente a nossa prática em Teatro Playback, e propor atividades que pudessem ampliar a capacidade expressiva e ao mesmo tempo contribuir para o refinamento da linguagem. Isto, sem perder o foco no fato de que esta forma de teatro possui algumas peculiaridades, principalmente na ideia de quê a centralidade não está calcada apenas em atuações sofisticadas, mas a serviço das histórias contadas e de seus narradores. 
Após alguns anos desenvolvendo e praticando o Teatro Playback, a Dionisos  sentiu necessidade de aprimorar essa prática, buscando outros caminhos estéticos para a sua atuação. 

 Seu trabalho generoso mostrou-se bastante eficaz para que possamos traçar esta meta com segurança. Estamos mergulhados na sala de ensaio, praticando e construindo novas formas de devolver, de maneira estética e ética, as histórias contadas pela plateia.  

Talvez o maior desafio seja no caminho da não representação. Não representar, mas acionar, nos colocou num lugar de desafio. Fora da zona de conforto. Como o Teatro Playback é um teatro feito em lugares nem sempre pensado para a atividade teatral, a prática de site-specific nos coloca numa abertura para a maior exploração nos lugares onde comumente praticamos o Playback, transformando e resignificando esses lugares. Certamente a questão espacial, topografia do lugar, os elementos como cor e formas nesses lugares afetarão de modo desafiador o nosso fazer teatral. Algum objeto ou arquitetura que poderiam ser empecilho, podem ser apropriados pela encenação. 
Somos gratos pela sua disposição de partilha do conhecimento. Registro aqui o patrocínio o Sistema Municipal de Desenvolvimento para Cultura – SIMDEC. O recurso no projeto nos oportuniza melhorarmos nossa prática para entregar para a comunidade um trabalho artístico de maior qualidade. 

 Um abraço, 

 Silvestre Ferreira 

Reflexões sobre a Oficina “A Poética do Corpo”

 

Por Clarice Steil Siewert

Nos dias 20 e 21 de agosto fizemos a oficina “A Poética do Corpo”, com a Prof. Dra. Sandra Meyer, com o intuito de trazer sua pesquisa em corpo e movimento e sua experiência com dança e teatro para sala de ensaio, de forma a contribuir com nossa pesquisa em Teatro Playback.

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Fizemos vários exercícios e discutimos alguns conceitos. Abaixo faço um breve relato acerca de algumas ideias/palavras que me mobilizaram:

Composição – em exercícios de composição, colocamos nossos corpos em relação ao espaço e aos outros corpos. Fugindo um pouco da busca por significado, fizemos brotar sentido a partir das relações de movimento e espaço. “A compreensão do que seja uma composição não se restringe ao ato de dispor cenicamente movimento, palavra, som, imagem, mas incide em um posicionamento ético, um ‘pôr-se com’, ou seja, posicionar-se com o outro: com+posição. Em sua etimologia (latim compositio), pressupõe modos de reunir, produzir, dispor, inventar, combinar, arranjar.” (MEYER, S. XAVIER, J., p. 261)*post 1 cena poetica 01

Ao dispor nossos corpos em determinado espaço em relação com este e com os outros atores, oferecemos a quem assiste um quadro gerador de sentidos, que mobiliza nestes a necessidade de também criar. Nesse sentido, compor em cena é trabalhar também e mais fortemente com a plateia, visto que a cena é mais aberta, com menos mediação representacional.

No jogo de arranjar a cena, éramos estimulados a atuar no concreto do espaço, na sua realidade física, estando abertos para os estímulos e um tanto mais responsivos do que pró-ativos. Mas como a própria Sandra alertava, não uma responsividade imediata e defensiva, mas que respira e permite o movimento. Ainda em jogo, a ideia era ir até o fim com o que acontecia, até que não fosse mais possível, então mudávamos o plano, mas ainda respondendo ao nosso entorno.

Falamos sobre o conceito de site-specific theatre, onde a cena é completamente dependente do lugar escolhido de ação. Atuar com o espaço dessa forma é ganhar mais um elemento de composição.

“Compor requer atenção para que não haja conversão, comunhão, apaziguamento estéril, unicidade de sentidos. Inventar requer rever nossas relações com as coisas, para que fiquem à disposição para virarem outras num dado plano de consistência.” (MEYER, S. p. 273) *

Viewpoints – todos já havíamos feito exercícios de viewpoints em outras oportunidades. Trata-se de uma ferramenta muito utilizada no teatro e também no Teatro Playback. Mas pudemos experimentar alguns exercícios que chamaram minha atenção para alguns pontos:

Corpos se relacionando no espaço através de ações simples comunicam muito.

Diferentes velocidades, andamentos e durações geram sentidos diferentes.

Estar nesse estado de jogo nos abre para outras formas de pensar a cena.

A topografia do espaço é também um elemento a se ter mais consideração!

Propor menos, escutar mais.

A repetição leva à diferença (repetindo chegamos em lugares de diferentes sentidos).

Hologramar – adorei essa expressão usada pela Sandra, se referindo a um tipo de “proto-ideia” que temos para a cena. No improviso, em que devemos agir com os estímulos presentes, não há espaço para ideias prontas e prévias. Mas hologramar é possível e é um exercício de imaginação que rápido se desfaz ou se concretiza no contato com o real.

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Objetos – brincamos um pouco com objetos. Discutimos a ideia de manusear e não manipular. Utilizar o objeto na sua concretude, sua realidade física, seu peso, sua forma, sua cor, suas dimensões. Esquecer sua função e não animá-lo. Hierarquicamente colocá-lo ao lado do ator. Novamente promover a geração de sentidos, agindo em relação a esses objetos, considerando que eles, por si só, já são muita coisa.

* XAVIER, Jussara et al (org.) Tubo de ensaio: composição [Interseções + Intervenções]. Florianópolis : Instituto Meyer Filho, 2016.  

A Cena Poética no Teatro Playback: pesquisa de linguagem

O Teatro Playback é uma forma teatral em que os atores e músicos improvisam histórias reais contadas por pessoas da plateia, tendo a figura do condutor como elo entre os artistas e o público. O nome, Playback Theatre, deriva da ideia de representar de volta (playing back) as histórias das pessoas da plateia. Criado em 1975 por Jonathan Fox e Jo Salas, existem grupos que fazem Teatro Playback em mais de 60 países. A Dionisos Teatro completa 10 anos de atuação em Teatro Playback em 2018 e é filiada ao IPTN (Rede Internacional de Teatro Playback).

Teatro Playback Estação 037.jpgEm 2018, após aprovação na Lei de Mecenato do SIMDEC de Joinville – SC, o grupo realizará o projeto “A Cena Poética no Teatro Playback: pesquisa de linguagem”, com o intuito de explorar ferramentas artísticas para o aprimoramento de sua prática na cena, música e condução de Teatro Playback.

 

Entendendo que apenas através da cena esteticamente bem feita e da poesia trabalhada nos corpos e vozes dos atores, músicos e condutores, é possível a prática de um TeatroPayback mais efetivo; serão desenvolvidas várias ações de pesquisa:

  • Promover a oficina “A Narrativa em Brecht” com Barbara Biscaro – UDESC – Florianópolis – SC;
  • Promover a oficina “A Poética do Corpo” com Sandra Meyer – UDESC – Florianópolis – SC;
  • Desenvolver pesquisa em figurinos com Daniel Olivetto – Cia Experimentus – Itajaí – SC;
  • Realizar 6 apresentações de Teatro Playback como demonstração do processo de trabalho;
  • Contribuir com a pesquisa estética do Teatro Playback, ajudando a estabelecer o diálogo desta prática com a cena teatral contemporânea;
  • Explorar as potencialidades poéticas das três funções do Teatro Playback: atuação, música e condução;
  • Ressaltar a atuação e pesquisa de Teatro Playback da Dionisos Teatro, grupo que já é referência desta forma teatral no país;
  • Promover o aperfeiçoamento profissional dos artistas envolvidos;
  • Compartilhar a experiência através de produção textual divulgada em sites específicos
  • Ressaltar a eficácia do Teatro Playback nos seus mais diversos campos de atuação, favorecendo a coesão e inclusão social através do aperfeiçoamento artístico;
  • Oferecer um espaço de discussão da prática do Teatro Playback aberta ao público em geral, democratizando o acesso aos bens culturais;
  • Realizar uma apresentação de Teatro Playback como contrapartida na AMORABI.

O Teatro Playback na Dionisos:

A Dionisos Teatro começou a praticar Teatro Playback em 2008, realizando diversas apresentações abertas ao público e para grupos em comunidades, escolas e instituições públicas e privadas. Principais atividades:

2008 – Circulação Teatro Playback: a Cena na Comunidade e a Comunidade em Cena por bairros de Joinville, em projeto contemplado no Edital de Apoio às Artes de Joinville;

2010 – Apresentação na Abertura da 2ª. Semana da Diversidade de Joinville;

2010 – Apresentação na CENA 7 – Mostra da Associação Joinvilense de Teatro;

2011 – Participação do grupo na 10ª. Conferência Internacional de Teatro Playback em Frankfurt – Alemanha;

2014 – Lançamento do livro “Nossas Histórias em Cena: um Encontro com o Teatro Playback” da atriz Clarice Steil Siewert;

2014 – Apresentação na abertura dos cursos do Centro de Teatro Playback em Curitiba;

2015 – Circulação de apresentações para grupos de mulheres no Projeto Mulheres em Cena, contemplado no Edital de Apoio às Artes de Joinville;

2015 – Participação na Conferência Internacional de Teatro Playback em Montreal, Canadá;

2015 – Co-Realização do 1º. Encontro Brasileiro de Teatro Playback em Joinville;

2017 – Participação do projeto DOC.Playback, com a realização de três documentários a partir de apresentações de Teatro Playback voltado para grupos de professores, mulheres, idosos e público LGBT, com a direção de Fabrício Porto;

2017 – Participação na Usina Teatral do SESC – Santa Rita – Recife, que teve como tema Teatro e Memória: as interfaces das narrativas do Teatro do Real na Cena contemporânea, com apresentação, oficina de formação e participação em mesa de debates;

2017 – Silvestre Ferreira torna-se Professor Credenciado do Centre for Playback Theatre;

2018 – Realização do projeto Mulheres, Mães e suas Histórias: Uma Vivência Através do Teatro Playback no Edital de Apoio à Cultura de Joinville, com formação de grupo e apresentações voltada para mulheres/mães.