O som acionado

Por Clarice Siewert

As sonoridades no Teatro Playback têm muitas funções. Assim como na maioria dos grupos, na Dionisos elas estavam bem concentradas no trabalho do músico. É ele que auxilia o condutor no andamento, pontuação e organização da cena. Por ter um olhar de fora, consegue exercer essa função ritualística. Mas o músico é também produtor da cena, e, junto com os atores, improvisa e cria atmosferas, sonoplastia, trilha sonora, ambientação, trabalhando tons e texturas para colorir e “emocionar” a cena.

Mesmo antes desta oficina com a Barbara Biscaro, já vínhamos querendo inserir mais musicalidade nos atores, um maior trânsito entre o espaço da cena e o da música, expandindo possibilidades sonoras. Mas nos faltava caminhos para iniciar essa busca.

Na oficina “A Narrativa em Brecht”, nossa proposta inicial era dialogar com a experiência de Barbara acerca dos recursos narrativos de Brecht, principalmente sua proposta musical. Para ele, a música e o canto surgiam em cena para dar outra dimensão de um personagem, por exemplo. Se através do enredo o espectador era levado a achar que um personagem era “mal”, a música vinha e mostrava outra faceta. Ao trabalhar com não-cantores, Brecht também apostava num canto muito “falado”, ou seja, se os atores não chegavam em alguma nota, muita coisa era falada no meio. Dessa forma, a música vinha para ser sentido, ser enredo, ser ação. Isso traz muitas reflexões para o trabalho em Playback.

Mas nosso trabalho com Barbara acabou sendo, principalmente, a exploração de um cabedal de estruturas sonoras que nos instrumentalizaram para inserir sonoridades na cena. E é importante salientar a diferença entre sonoridade e música. Também inserir a música que engloba toda sua estrutura tonal, rítmica, melódica. Mas antes, inserir as sonoridades, que podem ser jogos sonoros, consciência de ritmo de cena, barulhos, camas sonoras… entendendo que tudo que é inserido deve ser algo como um som acionado, ou seja, som (ou silêncio, ou mesmo música) com função e sentido. Assim, como colocava a própria Barbara, se não saísse exatamente afinado ou no ritmo, isso já não seria o mais importante. Inserido na cena como uma força necessária, o som (ou silêncio, ou mesmo música), estaria completo em sua execução por produzir sentido.

Entre o que experimentamos com ela e o que estamos levando para a sala de ensaio, me ficaram algumas conquistas (relatadas segundo minha ótica e neste momento da pesquisa):

  • Aquecimento

Um tanto técnico, estamos desenvolvendo um padrão de aquecimento vocal (que é corporal) com exercícios para nos ajudar a, além de aquecer a voz, colocá-la “pra frente”, de forma que tenhamos uma emissão parecida da voz.

  • Unidade do som e seu “tamanho” 

Discutimos com a Barbara acerca da necessidade de dar conta dos mais diversos espaços numa apresentação de Teatro Playback. Algo que ela coloca como sendo importante é atentarmos para a unidade do som, ou seja, que é mais importante cantar ou emitir o som dentro de sua proposta, do que tentar fazê-lo crescer para dar conta de um espaço muito grande ou com acústica ruim. A potência do que emitimos não está necessariamente no seu volume. É melhor manter uma proposta consistente, do que desconfigurá-la para assegurar que todos ouçam bem.

  • Treino de arpejo

Entrar “automaticamente” nas notas de um arpejo é algo que se constrói com treino contínuo. Inserimos o exercício de cantar as notas de um arpejo em nosso ensaio, de forma que possamos treinar ouvido e afinação, e na hora da cena, a partir da proposta do músico ou de algum ator, possamos entrar nas melodias ou propostas sonoras com diferentes vozes.

  • Cenas mais musicais

Estamos experimentando inserir mais melodias em todas as formas e cenas. Isso inclui atores mais corajosos para cantar e maior exercício de ouvir as propostas do músico.

  • Novos instrumentos

Estamos inserindo um pedal de looping e microfone, perto do músico, para ser uma opção não só para o músico, mas para os atores.

  • Porosidade dos espaços de cena e música

Estamos buscando borrar a fronteira entre cena e espaço da música. Por vezes os atores vão até o espaço da música para fazer cena. Também o músico vai para a cena com seu acordeom, estabelecendo-se com mais um elemento.

  •  Novas formas

Estamos experimentando novas formas. Uma espécie de “metro cantado” está se formando. Nosso Tableau, que ainda não foi experimentado em apresentação, continua sendo explorado, agora também com proposta sonora vindo do condutor.

  • Dinâmicas musicais

Aos poucos, estamos buscando novas dinâmicas para as músicas que cantamos no início da apresentação.

 

Anúncios

A escuta do sensível: voz e musicalidade com a Dionisos Teatro

Era domingo, mais ou menos meio dia, no galpão de ensaios da Dionisos e estávamos pensando em histórias para contar, para que pudéssemos experimentar os princípios de vocalidade e musicalidade que vínhamos preparando todo o fim de semana. Andréia, uma das atrizes do grupo, depois de algumas tentativas, para o exercício e me diz enfaticamente: “não podemos interpretar a história do outro, não podemos acrescentar detalhes ou nosso ponto de vista, temos que ser o mais fiéis possível às descrições, sensações e emoções daquele que narra”. Nesse momento, nessa fala, algo muito profundo se moveu em mim.

Não entendo especificamente de Teatro Playback e todo o meu aprendizado nesse campo tem vindo do contato com a Dionisos Teatro, em trabalhos sistemáticos de voz e musicalidade. A cada novo encontro eu mergulho com mais delicadeza e profundidade neste campo e observo estes atores e atrizes em um exercício da sensibilidade. Não somente uma sensibilidade formal, que seria associada ao treinamento técnico em corpo e voz de atores e atrizes disponíveis para a cena, mas uma sensibilidade humana, que trabalha com a escuta do outro como princípio motor da construção artística. Parece uma grande falta de atenção, mas eu que havia passado o final de semana inteiro construindo formas sonoras que dependiam de uma escuta aguçada daqueles atores e atrizes, só naquele momento compreendi o quão profunda era a qualidade da escuta daquelas pessoas, cuja tarefa em cena é promover o contato entre o narrador de sua história com a materialização da mesma. O ator e atriz como este mediador entre a escuta da voz do outro e materialização no espaço, na sonoridade e no corpo de narrativas íntimas.

20180922_1649311968663974.jpg

Verbalizar em voz alta, vocalizar as histórias de si, é um processo complexo. Transformar em som da voz, em palavra tornada corpo uma história que mora em nossa cabeça ou em nossa memória é um mecanismo poderoso. Vide o advento da psicanálise e o poder da narração de si em diversos processos de cura. A palavra proferida, a vocalização das ideias, não é uma atitude banal.

Talvez porque falemos muito, o tempo todo, é que temos perdido o sentido dessa corporificação de nossos pensamentos e sentimentos. Mas na situação do Teatro Playback, o narrador corporifica sua história em voz alta, oferecendo um pedaço de si para elenco e plateia; os atores e atrizes, em um exercício de escuta e atenção, dão forma, cor, textura, sonoridade e espacialidade a essas palavras recém proferidas, em um jogo especular. No caso da sonoridade, também se torna um mecanismo de eco: como ecoar a palavra, o sentimento e a ação do outro, buscando o mínimo de distorções possível? Como construir este arcabouço de sonoridades que se tornam uma trama abstrata e simbólica, como aprofundar um jogo de referenciais compartilhados entre seres humanos que envolve não somente o indivíduo mas a cultura e as construções sociais como um todo?

A música e a musicalidade são elementos abstratos do som que, quando concretizados, se mostram muito contundentes. Obviamente, em todo exercício social (como a música é, e nunca deixará de sê-lo) lançamos mão de formas preestabelecidas, de signos e símbolos compartilhados para arquitetar a materialização de uma ideia. Talvez o mais bonito do processo que vivemos juntos é a descoberta evidente de que o potencial sonoro e musical do grupo já está corporificado; são atores e atrizes com uma sensibilidade extrema para a escuta, e como se não bastasse, sentem um prazer enorme em vocalizar, em criar ideias e imagens sonoras e musicais. Esses dois ingredientes levaram a uma concretização quase imediata de sonoridades e mecanismos musicais que rapidamente tomaram forma e encheram de beleza aquele galpão nos dias de trabalho.

Confesso que muitas vezes me senti meio desnecessária. Vi que a partir de uma faísca pequena dada por mim, esse grupo já conseguia rapidamente transformar-se em fogueira viva e quente. Que talvez o processo tenha se dado todo ao contrário: achou-se que eu ia provocar processos novos, mas no final saí constatando que esse processo musical e sonoro na Dionisos Teatro já é forte e bem estabelecido, e que apenas a abertura e aceitação desse potencial já causaram uma rápida concretização sonora nas práticas do Playback.

img-20181009-wa00141560515561.jpg

Eu, elemento catalisador, estava ali apenas para aproveitar a contundência daquelas vozes, instrumentos musicais e jogos sonoros. Tenho realmente uma profissão privilegiada: lidar com atores e atrizes sensíveis e abertos, que disponibilizam seus corpos-vozes para o exercício de ecoamento do outro. Esse elemento fundamental de relação entre elenco e narrador das histórias é que torna a prática musical, no contexto do Playback, tão bonita: porque é imbuída de um sentido, porque é uma ação concreta e compartilhada, é jogo vocal e sonoro para que se possa escutar não o virtuosismo de quem executa, mas sim a beleza de tornar viva a história do outro.

 

Barbara Biscaro

Desterro, 01 de outubro de 2018.

“Só fazer” e “fazer o combinado”

Libertação de “representações” e criação de repertórios sonoros no Teatro Playback.

por Eduardo Campos

 

Escrevi boa parte desse texto durante a oficina de corpo com a Sandra Meyer e não consegui terminar. Parecia faltar alguma coisa nas minhas ideias. Agora, depois da oficina com a Barbara Biscaro, me senti inspirado para terminá-lo e acredito ter descoberto o que faltava: a mistura, a amálgama, palavra utilizada várias vezes pela Barbara.

O desafio no nosso projeto é pensar em novas formas, lapidar as técnicas que já existem e reforçar o caráter artístico do Teatro Playback. Sendo assim, as oficinas que fizemos vêm nesse sentido. Não são as oficineiras que devem trazer algo que possamos utilizar no trabalho, somos nós que temos que fazer a ligação. Então, durante os encontros com elas, a cabeça estava sempre conectada em como utilizar exercício ‘a’ ou ‘b’ no espetáculo. Em alguns momentos até “forçamos a barra” para utilizar determinado exercício em cena, criando cenas completamente musicais, por exemplo, chegando a extrapolar o limite do que seria aceitável se estivéssemos em uma apresentação

A partir daqui vou misturar as coisas que havia escrito há um mês sobre a oficina da Sandra com as coisas que estão na cabeça sobre a oficina da Barbara. Aliás, é interessante a mistura porque as duas coisas são diferentes na essência. Sandra nos trouxe uma possibilidade de abrir a atuação de forma poética, confiando no poder do movimento e da ação. E Barbara nos trouxe a sistematização, a construção de formatos fixos a serem utilizados de forma mais conscientes em cena. É mais ou menos poder “só fazer” com a atuação e “fazer o combinado” na hora de usar a voz.

O trabalho de corpo

O trabalho que fizemos com a Sandra nos fez pensar em como resolver algumas questões que nos incomoda no Teatro Playback. São preocupações de como criar ações poéticas no lugar de ações realistas. Não que as ações realistas sejam um problema, mas sim como enriquecer poeticamente as cenas no Teatro Playback.

Os exercícios vieram a partir de briefing da Clarice, explicando o projeto e o que desejávamos com a oficina dela. Sandra disse ter se informado sobre o Teatro Playback a partir de textos da Clarice e do pouco que já havia visto. Assim ela nos trouxe exercícios que são utilizados no viewpoints (pontos de vista) criado por Mary Overlie e expandido por Anne Bogart e Tina Landau.

Nesse método de criação, as ações são as geradoras de “vida” na cena. Não se representa algo utilizando o movimento. O que surge primeiro é, justamente, o movimento. A partir dele é que surgem coisas com significados, sejam eles significados dramatúrgicos ou mesmo imagens interessantes. A confiança na atitude de “deixar de criar em cena” e no potencial criativo do movimento, sendo uma atitude difícil, porém essencial, não pode ser ignorada.

No Teatro Playback existe algo parecido. A confiança em que as histórias contadas pelas pessoas geram material para a cena é o que faz com que aconteça o espetáculo. Não há como entrar em cena com dramaturgias pré-estabelecidas. É preciso deixar a história conduzir as ações e narrativas.

Em resumo, tanto nos viewpoints como no Teatro Playback, o que importa é a confiança no espontâneo.

Sendo assim, nossa busca com a oficina da Sandra, com o projeto em si, é desenvolver nossa forma de fazer Teatro Playback. Como desenvolver? Com exercícios e jogos que tragam técnicas e experiências para nossos corpos, para nossas ações de maneira que fiquem orgânicas no trabalho. Além de criar coisas mais palpáveis, como por exemplo regras de cena.

Acabamos definindo “restrições” como o formato chamado “Raias”. Nele, nós três em cena definimos três linhas no palco, como as raias em uma piscina. Cada um de nós permanece nessas linhas e cria repetições com pontos chave da história do narrador. Neste formato não existe um protagonista definido, facilitando a quebra cronológica da história e o afloramento da poética do movimento. Enquanto exercício de viewpoints ele serve para a descoberta de possibilidades cênicas pelo acaso e de relações com os demais performers, mesmo sendo a atuação “individual”. Enquanto formato de Playback ele serve para criar imagens poéticas mais abstratas a partir do jogo entre nós três em cena, que deve ser estabelecido mais rapidamente do que durante o exercício. Isso faz com que possamos extrapolar as raias, adentrando no espaço do outro, se necessário. Lembrando que o que conta no Teatro Playback é a história, é o narrador. Nada tem sentido se o centro da cena não for a história contada. Por isso, em alguns momentos as regras, por mais formatadas que sejam, são feitas de borracha, para que sejam flexíveis durante a apresentação,

Outro tipo de restrição é a pré-definição de cenário. Quando vamos para o momento em que são contadas as histórias, colocamos os caixotes espalhados pelo palco a partir de um combinado prévio. Esse combinado muda a cada apresentação, assim não temos o mesmo cenário sempre. Essa restrição é como um problema que precisa ser resolvido e que nos move para uma atuação mais poética e menos realista. Ou seja, nunca partimos de um palco em branco, ele já possui desenhos que não foram pensados a partir da história. Quando uma cena acaba, os caixotes e panos utilizados nela permanecem neste quadro e são utilizados na próxima.

Com relação aos viewpoints, começamos a utilizá-los em cena, como a topografia, por exemplo, que traça “mapas” pelo espaço a partir do deslocamento. Uma caminhada em linha reta tem um poder dentro de uma determinada história e isso não precisa estar “representado”. Algo significativo surgirá a partir desse movimento simples. O significado e a poesia do movimento brotam como algo orgânico e dão força à história representada. É a confiança na ação enquanto disparadora de “vida” na cena.

Tudo isso gerou a desorganização de nosso repertório de atuação. No sentido de, novamente, “só fazer”. Acredito que isso seja possível devido a experiência que temos com o Teatro Playback. Para quem está iniciando, “só fazer” pode ser muito bobo e não explicativo, mas é no sentido de abrir demais a dramaturgia. O que pode ser um erro. Como estávamos muito tempo não nos permitindo extrapolar demais a narrativa cênica acabamos desorganizando-a, de forma moderada.

(Isso parece final de propaganda de bebida alcoólica: “Aprecie com moderação”. Mas arrematando, esse relato é sobre nosso trabalho, então não sei o quanto essas palavras servem para outras companhias de Teatro Playback. Por isso é bom deixar um pouco mais claro).

A organização ou “fazer o combinado” começa a partir da oficina da Barbara. Temos um potencial sonoro de qualidade. No entanto, não temos muita confiança em como utilizá-lo. Falta de confiança ou de conhecimento mesmo. Pois a música em sua estrutura é sistemática.

Na atuação, as ações têm intensidades de significado em diferentes níveis, que são sutis entre si, fracos e fortíssimos. Em uma atuação baseada no improviso, elas variam durante toda a apresentação, não representando sua perda. No canto ou nas sonoridades, as intensidades de significados são altamente contrastantes. Durante a improvisação sons executados aleatoriamente podem ser bonitos e significativos ou apenas desafinados ou ainda esvaziados de significado gerando uma quebra na relação da plateia com a cena.

Barbara nos trouxe formatos de experimentações sonoras. Por exemplo, o arpejo. Em uma determinada escala, como a de Dó. Fixamos as notas Dó, Mi, Sol e Dó (oitava). No acordeom as notas são tocadas e nós cantávamos junto. Em um determinado momento, podíamos improvisar de maneira isolada, mas sempre nas notas. Assim, enquanto o Vini fazia o improviso no acordeom, nós em cena brincávamos com as notas, repetindo-as, alongando-as, aumentando e diminuindo a intensidade. Assim surgiu um dos itens de nosso repertório sonoro, o arpejo. Simples, não?! Como não havíamos pensado nisso antes? Fizemos isso em cena várias vezes, mas de forma intuitiva. Agora é hora de organizar o repertório e fazer de forma consciente. Fazer o combinado.  Vou por aqui um áudio do combinado que surgiu a partir da oficina da Barbara.

Link para ouvir o áudio

Sistemático não é?!

Por fim, nosso desafio é amalgamar isso tudo, a desorganização da atuação com a organização das sonoridades. Enquanto uma nos faz só fazer e acreditar na poesia do movimento a outra nos faz construir um repertório que possa ser utilizado de forma mais consciente em cena. Isso é algo que não posso nem tentar prever neste texto. Depende do que irá acontecer nos próximos ensaios e nas próximas apresentações.

Relatos de Ensaio – Abrindo espaços

03 de setembro de 2018 

 Por Clarice Steil Siewert 

Depois de nossa primeira oficina “A Poética do Corpo”, fomos para a sala de ensaio fazer as pontes entre o que vimos e experenciamos e nossa prática em Teatro Playback. 

Como procedimento de trabalho, decidimos elencar algumas propostas de experimentação que tínhamos, para depois organizá-las para a demonstração dos dias 30/08 e 01/09. 

 

Assim, decidimos experimentar: 

  1. O exercício da Raia (do Viewpoints) como uma possibilidade de forma curta 
  2. Ampliação do uso do espaço, usando composições em relação à ele 
  3. Exercício do tableau como treino para o início do uso da forma curta “Tableau Stories  
  4. Uso de algumas regras do Viewpoints nas cenas livres 
  5. Modificação na disposição dos elementos cênicos 
  6. Maior fluidez na cena final 

 

 

Nem todas essas mudanças estavam nos nossos planos iniciais. Foram ocorrendo conforme fomos descobrindo as possibilidades. Outras talvez eu tenha negligenciado neste relato, e outras, ainda, são embriões que aguardam seu tempo de maturação.  

Para cada proposta, a gente retomava um pouco do que havíamos feito e como imaginávamos que poderia contribuir em algum aspecto de uma apresentação de Teatro Playback. Mas era o chão de ensaio que realmente podia nos dar respostas. Íamos experimentando, discutíamos quais regras ficavam, quais saíam, que tipo de material narrativo cada forma dava conta. 

Fechamos algumas propostas para realizar nossas duas primeiras demonstrações de trabalho. No dia 30/08, recebemos pais, alunos e profissionais do Centro de Transformação Arte para Todos. No dia 01/09, recebemos alunos do programa de teatro da Univille, integrantes do DeMães Teatro Playback e do grupo de teatro da Onda Dura.

 

Depois dessas experiências, descrevo um pouco melhor como ficaram nossas propostas: 

1. Nas duas apresentações utilizamos nossa nova forma curta, que chamamos “Raias”. Na verdade, ela é não é tão curta, é mais como uma forma narrativa como a “Narrativa em V” e “Metro Quadrado”. Inspirado no exercício “Raia”, do Viewpoints, ela mantém algumas regras deste, mas abre-se para uma maior relação entre os atores, e para pequenas ações, de forma a contemplar a história/sentimento contado. Cada ator, agindo em sua raia (como a raia de uma piscina), simultaneamente, joga com o espaço e com os outros integrantes, podendo andar, parar, saltar, falar/cantar, cair, parar. Não há personagens estabelecidos. Eles vão aparecendo como flashes nas ações de todos os atores. Assim como a cronologia da história também não é necessariamente seguida. Os acontecimentos vão aparecendo em fragmentos. Estamos entendendo que é uma boa forma para colocar em cena alguma pequena história não muito linear, com muitos sentimentos atrelados, algo que ainda esteja presente no narrador. O tempo nos dirá o quanto essa forma pode ainda evoluir e como pode ser melhor aproveitada. 

 

2.  Decidimos levar mais em consideração nosso espaço de atuação. No Galpão da AJOTE, por exemplo, local das demonstrações, passamos a usar um maior espaço para a encenação, incluindo inclusive a parede ao fundo. Se os atores sentirem necessidade, é possível ir para a plateia, para a coxia, para qualquer lugar. A conexão com a plateia e o narrador não se dá só pela visão. Também buscando compor com o espaço, a apresentação inicial de nossos sentimentos saiu da base fixa dos caixotes (que iniciam dispostos no centro da cena)Cada cena pode ser “puxada” para onde o primeiro ator quiser. As esculturas fluidas vão sendo feitas em diferentes lugares. Por vezes, ela pode até “explodir”, virando uma forma compositiva com o espaço. 

 

3. Ensaiamos diversos formatos para por em prática a forma “Tableau stories”, a qual chamamos “Tableau”. Acabamos não usando-a em nenhuma das demonstrações. Mas, por enquanto, ela é feita com os atores em cima dos caixotes, fazendo as imagens a partir das frases ditas pelo condutor.  

 

4. Para a encenação das histórias em livre improvisação, estamos buscando sair cada vez mais da encenação realista. Para isso, prestar atenção à topografia, à relação ao corpo do outro, às ações de andar, cair, saltar, parar, por exemplo, nos tem dado material para construir cenas mais poéticas. É ainda um grande desafio, esticar a corda sem que arrebente… jogar com as imagens, sons, formas, corpos, sem perder a conexão com a história e seu narrador. É um pouco como se os personagens da história entrassem jogando Viewpoints, mas podendo assumir outro jogo a qualquer momento. 

 

5. Modificamos nosso ritual. Entre uma cena e outra, no lugar de arrumar as coisas e nos colocarmos sempre no mesmo local, vamos agora deixando as coisas como estão. Uma forma simbólica das histórias também se conectarem entre si. Vamos lidando com um “novo” palco a cada vez, atuando em tempo real com as coisas que ali estão. Ainda mantemos a “montagem”, para a improvisação de cenas, e o ator protagonista monta a cena a partir do que já está. Tivemos um retorno positivo desta mudança, de uma sensação de maior leveza, menos rigidez, sem perder a limpeza e os códigos do Playback. 

 

6. Nossa forma final era a “Bricolage”. “Afrouxamos” o que fazíamos. Andamos mais pelo espaço. A cada nova história a ser relembrada, um ator “puxa” os outros, descolando-se um pouco. O Vini vem com seu acordeom para a cena, e torna-se mais um elemento para nos conectarmos. Passamos por todos os narradores, e continuamos terminando com a música “Água Maria da Terra 

 

Depois de dez anos fazendo Teatro Playback, nos propomos a mergulhar em um projeto de pesquisa. No teatro, dizemos  que é preciso conhecer as regras para poder quebrá-las. Acho que pelo nosso profundo respeito ao Teatro Playback, estamos buscando justamente “esticá-lo”, “tencioná-lo”, não sei se quebrando algumas regras, mas pelo menos, revendo-asNão é negar o qué, o que já fomos… mas é um desejo de abrir maiores espaços de criação, afrouxando limites e experimentando. 

 

Sobre o ofício de ensinar: Carta para Sandra Meyer.

 

Joinville, 26 de agosto de 2018. 

 Cara colega Sandra Meyer, 

 O ofício do saber ensinar é desafio, constante nos tempos atuais, em que, a todo custo, tentam impingir à educação tecnologias novidadeiras, cheias de promessas que substituem, ou quase, a presença física do Professor. Não recusando essas formas, mas colocando-as no seu devido lugar, venho refletir um pouco sobre o ato de ensinar, à luz da tua prática na oficina ministrada para a companhia Dionisos Teatro. Desafio de olhar diferente a nossa prática em Teatro Playback, e propor atividades que pudessem ampliar a capacidade expressiva e ao mesmo tempo contribuir para o refinamento da linguagem. Isto, sem perder o foco no fato de que esta forma de teatro possui algumas peculiaridades, principalmente na ideia de quê a centralidade não está calcada apenas em atuações sofisticadas, mas a serviço das histórias contadas e de seus narradores. 
Após alguns anos desenvolvendo e praticando o Teatro Playback, a Dionisos  sentiu necessidade de aprimorar essa prática, buscando outros caminhos estéticos para a sua atuação. 

 Seu trabalho generoso mostrou-se bastante eficaz para que possamos traçar esta meta com segurança. Estamos mergulhados na sala de ensaio, praticando e construindo novas formas de devolver, de maneira estética e ética, as histórias contadas pela plateia.  

Talvez o maior desafio seja no caminho da não representação. Não representar, mas acionar, nos colocou num lugar de desafio. Fora da zona de conforto. Como o Teatro Playback é um teatro feito em lugares nem sempre pensado para a atividade teatral, a prática de site-specific nos coloca numa abertura para a maior exploração nos lugares onde comumente praticamos o Playback, transformando e resignificando esses lugares. Certamente a questão espacial, topografia do lugar, os elementos como cor e formas nesses lugares afetarão de modo desafiador o nosso fazer teatral. Algum objeto ou arquitetura que poderiam ser empecilho, podem ser apropriados pela encenação. 
Somos gratos pela sua disposição de partilha do conhecimento. Registro aqui o patrocínio o Sistema Municipal de Desenvolvimento para Cultura – SIMDEC. O recurso no projeto nos oportuniza melhorarmos nossa prática para entregar para a comunidade um trabalho artístico de maior qualidade. 

 Um abraço, 

 Silvestre Ferreira 

Reflexões sobre a Oficina “A Poética do Corpo”

 

Por Clarice Steil Siewert

Nos dias 20 e 21 de agosto fizemos a oficina “A Poética do Corpo”, com a Prof. Dra. Sandra Meyer, com o intuito de trazer sua pesquisa em corpo e movimento e sua experiência com dança e teatro para sala de ensaio, de forma a contribuir com nossa pesquisa em Teatro Playback.

post 2 cena poetica 01

Fizemos vários exercícios e discutimos alguns conceitos. Abaixo faço um breve relato acerca de algumas ideias/palavras que me mobilizaram:

Composição – em exercícios de composição, colocamos nossos corpos em relação ao espaço e aos outros corpos. Fugindo um pouco da busca por significado, fizemos brotar sentido a partir das relações de movimento e espaço. “A compreensão do que seja uma composição não se restringe ao ato de dispor cenicamente movimento, palavra, som, imagem, mas incide em um posicionamento ético, um ‘pôr-se com’, ou seja, posicionar-se com o outro: com+posição. Em sua etimologia (latim compositio), pressupõe modos de reunir, produzir, dispor, inventar, combinar, arranjar.” (MEYER, S. XAVIER, J., p. 261)*post 1 cena poetica 01

Ao dispor nossos corpos em determinado espaço em relação com este e com os outros atores, oferecemos a quem assiste um quadro gerador de sentidos, que mobiliza nestes a necessidade de também criar. Nesse sentido, compor em cena é trabalhar também e mais fortemente com a plateia, visto que a cena é mais aberta, com menos mediação representacional.

No jogo de arranjar a cena, éramos estimulados a atuar no concreto do espaço, na sua realidade física, estando abertos para os estímulos e um tanto mais responsivos do que pró-ativos. Mas como a própria Sandra alertava, não uma responsividade imediata e defensiva, mas que respira e permite o movimento. Ainda em jogo, a ideia era ir até o fim com o que acontecia, até que não fosse mais possível, então mudávamos o plano, mas ainda respondendo ao nosso entorno.

Falamos sobre o conceito de site-specific theatre, onde a cena é completamente dependente do lugar escolhido de ação. Atuar com o espaço dessa forma é ganhar mais um elemento de composição.

“Compor requer atenção para que não haja conversão, comunhão, apaziguamento estéril, unicidade de sentidos. Inventar requer rever nossas relações com as coisas, para que fiquem à disposição para virarem outras num dado plano de consistência.” (MEYER, S. p. 273) *

Viewpoints – todos já havíamos feito exercícios de viewpoints em outras oportunidades. Trata-se de uma ferramenta muito utilizada no teatro e também no Teatro Playback. Mas pudemos experimentar alguns exercícios que chamaram minha atenção para alguns pontos:

Corpos se relacionando no espaço através de ações simples comunicam muito.

Diferentes velocidades, andamentos e durações geram sentidos diferentes.

Estar nesse estado de jogo nos abre para outras formas de pensar a cena.

A topografia do espaço é também um elemento a se ter mais consideração!

Propor menos, escutar mais.

A repetição leva à diferença (repetindo chegamos em lugares de diferentes sentidos).

Hologramar – adorei essa expressão usada pela Sandra, se referindo a um tipo de “proto-ideia” que temos para a cena. No improviso, em que devemos agir com os estímulos presentes, não há espaço para ideias prontas e prévias. Mas hologramar é possível e é um exercício de imaginação que rápido se desfaz ou se concretiza no contato com o real.

post 3 cena poetica 01

Objetos – brincamos um pouco com objetos. Discutimos a ideia de manusear e não manipular. Utilizar o objeto na sua concretude, sua realidade física, seu peso, sua forma, sua cor, suas dimensões. Esquecer sua função e não animá-lo. Hierarquicamente colocá-lo ao lado do ator. Novamente promover a geração de sentidos, agindo em relação a esses objetos, considerando que eles, por si só, já são muita coisa.

* XAVIER, Jussara et al (org.) Tubo de ensaio: composição [Interseções + Intervenções]. Florianópolis : Instituto Meyer Filho, 2016.  

A Cena Poética no Teatro Playback: pesquisa de linguagem

O Teatro Playback é uma forma teatral em que os atores e músicos improvisam histórias reais contadas por pessoas da plateia, tendo a figura do condutor como elo entre os artistas e o público. O nome, Playback Theatre, deriva da ideia de representar de volta (playing back) as histórias das pessoas da plateia. Criado em 1975 por Jonathan Fox e Jo Salas, existem grupos que fazem Teatro Playback em mais de 60 países. A Dionisos Teatro completa 10 anos de atuação em Teatro Playback em 2018 e é filiada ao IPTN (Rede Internacional de Teatro Playback).

Teatro Playback Estação 037.jpgEm 2018, após aprovação na Lei de Mecenato do SIMDEC de Joinville – SC, o grupo realizará o projeto “A Cena Poética no Teatro Playback: pesquisa de linguagem”, com o intuito de explorar ferramentas artísticas para o aprimoramento de sua prática na cena, música e condução de Teatro Playback.

 

Entendendo que apenas através da cena esteticamente bem feita e da poesia trabalhada nos corpos e vozes dos atores, músicos e condutores, é possível a prática de um TeatroPayback mais efetivo; serão desenvolvidas várias ações de pesquisa:

  • Promover a oficina “A Narrativa em Brecht” com Barbara Biscaro – UDESC – Florianópolis – SC;
  • Promover a oficina “A Poética do Corpo” com Sandra Meyer – UDESC – Florianópolis – SC;
  • Desenvolver pesquisa em figurinos com Daniel Olivetto – Cia Experimentus – Itajaí – SC;
  • Realizar 6 apresentações de Teatro Playback como demonstração do processo de trabalho;
  • Contribuir com a pesquisa estética do Teatro Playback, ajudando a estabelecer o diálogo desta prática com a cena teatral contemporânea;
  • Explorar as potencialidades poéticas das três funções do Teatro Playback: atuação, música e condução;
  • Ressaltar a atuação e pesquisa de Teatro Playback da Dionisos Teatro, grupo que já é referência desta forma teatral no país;
  • Promover o aperfeiçoamento profissional dos artistas envolvidos;
  • Compartilhar a experiência através de produção textual divulgada em sites específicos
  • Ressaltar a eficácia do Teatro Playback nos seus mais diversos campos de atuação, favorecendo a coesão e inclusão social através do aperfeiçoamento artístico;
  • Oferecer um espaço de discussão da prática do Teatro Playback aberta ao público em geral, democratizando o acesso aos bens culturais;
  • Realizar uma apresentação de Teatro Playback como contrapartida na AMORABI.

O Teatro Playback na Dionisos:

A Dionisos Teatro começou a praticar Teatro Playback em 2008, realizando diversas apresentações abertas ao público e para grupos em comunidades, escolas e instituições públicas e privadas. Principais atividades:

2008 – Circulação Teatro Playback: a Cena na Comunidade e a Comunidade em Cena por bairros de Joinville, em projeto contemplado no Edital de Apoio às Artes de Joinville;

2010 – Apresentação na Abertura da 2ª. Semana da Diversidade de Joinville;

2010 – Apresentação na CENA 7 – Mostra da Associação Joinvilense de Teatro;

2011 – Participação do grupo na 10ª. Conferência Internacional de Teatro Playback em Frankfurt – Alemanha;

2014 – Lançamento do livro “Nossas Histórias em Cena: um Encontro com o Teatro Playback” da atriz Clarice Steil Siewert;

2014 – Apresentação na abertura dos cursos do Centro de Teatro Playback em Curitiba;

2015 – Circulação de apresentações para grupos de mulheres no Projeto Mulheres em Cena, contemplado no Edital de Apoio às Artes de Joinville;

2015 – Participação na Conferência Internacional de Teatro Playback em Montreal, Canadá;

2015 – Co-Realização do 1º. Encontro Brasileiro de Teatro Playback em Joinville;

2017 – Participação do projeto DOC.Playback, com a realização de três documentários a partir de apresentações de Teatro Playback voltado para grupos de professores, mulheres, idosos e público LGBT, com a direção de Fabrício Porto;

2017 – Participação na Usina Teatral do SESC – Santa Rita – Recife, que teve como tema Teatro e Memória: as interfaces das narrativas do Teatro do Real na Cena contemporânea, com apresentação, oficina de formação e participação em mesa de debates;

2017 – Silvestre Ferreira torna-se Professor Credenciado do Centre for Playback Theatre;

2018 – Realização do projeto Mulheres, Mães e suas Histórias: Uma Vivência Através do Teatro Playback no Edital de Apoio à Cultura de Joinville, com formação de grupo e apresentações voltada para mulheres/mães.