Relatos de Ensaio – Abrindo espaços

03 de setembro de 2018 

 Por Clarice Steil Siewert 

Depois de nossa primeira oficina “A Poética do Corpo”, fomos para a sala de ensaio fazer as pontes entre o que vimos e experenciamos e nossa prática em Teatro Playback. 

Como procedimento de trabalho, decidimos elencar algumas propostas de experimentação que tínhamos, para depois organizá-las para a demonstração dos dias 30/08 e 01/09. 

 

Assim, decidimos experimentar: 

  1. O exercício da Raia (do Viewpoints) como uma possibilidade de forma curta 
  2. Ampliação do uso do espaço, usando composições em relação à ele 
  3. Exercício do tableau como treino para o início do uso da forma curta “Tableau Stories  
  4. Uso de algumas regras do Viewpoints nas cenas livres 
  5. Modificação na disposição dos elementos cênicos 
  6. Maior fluidez na cena final 

 

 

Nem todas essas mudanças estavam nos nossos planos iniciais. Foram ocorrendo conforme fomos descobrindo as possibilidades. Outras talvez eu tenha negligenciado neste relato, e outras, ainda, são embriões que aguardam seu tempo de maturação.  

Para cada proposta, a gente retomava um pouco do que havíamos feito e como imaginávamos que poderia contribuir em algum aspecto de uma apresentação de Teatro Playback. Mas era o chão de ensaio que realmente podia nos dar respostas. Íamos experimentando, discutíamos quais regras ficavam, quais saíam, que tipo de material narrativo cada forma dava conta. 

Fechamos algumas propostas para realizar nossas duas primeiras demonstrações de trabalho. No dia 30/08, recebemos pais, alunos e profissionais do Centro de Transformação Arte para Todos. No dia 01/09, recebemos alunos do programa de teatro da Univille, integrantes do DeMães Teatro Playback e do grupo de teatro da Onda Dura.

 

Depois dessas experiências, descrevo um pouco melhor como ficaram nossas propostas: 

1. Nas duas apresentações utilizamos nossa nova forma curta, que chamamos “Raias”. Na verdade, ela é não é tão curta, é mais como uma forma narrativa como a “Narrativa em V” e “Metro Quadrado”. Inspirado no exercício “Raia”, do Viewpoints, ela mantém algumas regras deste, mas abre-se para uma maior relação entre os atores, e para pequenas ações, de forma a contemplar a história/sentimento contado. Cada ator, agindo em sua raia (como a raia de uma piscina), simultaneamente, joga com o espaço e com os outros integrantes, podendo andar, parar, saltar, falar/cantar, cair, parar. Não há personagens estabelecidos. Eles vão aparecendo como flashes nas ações de todos os atores. Assim como a cronologia da história também não é necessariamente seguida. Os acontecimentos vão aparecendo em fragmentos. Estamos entendendo que é uma boa forma para colocar em cena alguma pequena história não muito linear, com muitos sentimentos atrelados, algo que ainda esteja presente no narrador. O tempo nos dirá o quanto essa forma pode ainda evoluir e como pode ser melhor aproveitada. 

 

2.  Decidimos levar mais em consideração nosso espaço de atuação. No Galpão da AJOTE, por exemplo, local das demonstrações, passamos a usar um maior espaço para a encenação, incluindo inclusive a parede ao fundo. Se os atores sentirem necessidade, é possível ir para a plateia, para a coxia, para qualquer lugar. A conexão com a plateia e o narrador não se dá só pela visão. Também buscando compor com o espaço, a apresentação inicial de nossos sentimentos saiu da base fixa dos caixotes (que iniciam dispostos no centro da cena)Cada cena pode ser “puxada” para onde o primeiro ator quiser. As esculturas fluidas vão sendo feitas em diferentes lugares. Por vezes, ela pode até “explodir”, virando uma forma compositiva com o espaço. 

 

3. Ensaiamos diversos formatos para por em prática a forma “Tableau stories”, a qual chamamos “Tableau”. Acabamos não usando-a em nenhuma das demonstrações. Mas, por enquanto, ela é feita com os atores em cima dos caixotes, fazendo as imagens a partir das frases ditas pelo condutor.  

 

4. Para a encenação das histórias em livre improvisação, estamos buscando sair cada vez mais da encenação realista. Para isso, prestar atenção à topografia, à relação ao corpo do outro, às ações de andar, cair, saltar, parar, por exemplo, nos tem dado material para construir cenas mais poéticas. É ainda um grande desafio, esticar a corda sem que arrebente… jogar com as imagens, sons, formas, corpos, sem perder a conexão com a história e seu narrador. É um pouco como se os personagens da história entrassem jogando Viewpoints, mas podendo assumir outro jogo a qualquer momento. 

 

5. Modificamos nosso ritual. Entre uma cena e outra, no lugar de arrumar as coisas e nos colocarmos sempre no mesmo local, vamos agora deixando as coisas como estão. Uma forma simbólica das histórias também se conectarem entre si. Vamos lidando com um “novo” palco a cada vez, atuando em tempo real com as coisas que ali estão. Ainda mantemos a “montagem”, para a improvisação de cenas, e o ator protagonista monta a cena a partir do que já está. Tivemos um retorno positivo desta mudança, de uma sensação de maior leveza, menos rigidez, sem perder a limpeza e os códigos do Playback. 

 

6. Nossa forma final era a “Bricolage”. “Afrouxamos” o que fazíamos. Andamos mais pelo espaço. A cada nova história a ser relembrada, um ator “puxa” os outros, descolando-se um pouco. O Vini vem com seu acordeom para a cena, e torna-se mais um elemento para nos conectarmos. Passamos por todos os narradores, e continuamos terminando com a música “Água Maria da Terra 

 

Depois de dez anos fazendo Teatro Playback, nos propomos a mergulhar em um projeto de pesquisa. No teatro, dizemos  que é preciso conhecer as regras para poder quebrá-las. Acho que pelo nosso profundo respeito ao Teatro Playback, estamos buscando justamente “esticá-lo”, “tencioná-lo”, não sei se quebrando algumas regras, mas pelo menos, revendo-asNão é negar o qué, o que já fomos… mas é um desejo de abrir maiores espaços de criação, afrouxando limites e experimentando. 

 

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Sobre o ofício de ensinar: Carta para Sandra Meyer.

 

Joinville, 26 de agosto de 2018. 

 Cara colega Sandra Meyer, 

 O ofício do saber ensinar é desafio, constante nos tempos atuais, em que, a todo custo, tentam impingir à educação tecnologias novidadeiras, cheias de promessas que substituem, ou quase, a presença física do Professor. Não recusando essas formas, mas colocando-as no seu devido lugar, venho refletir um pouco sobre o ato de ensinar, à luz da tua prática na oficina ministrada para a companhia Dionisos Teatro. Desafio de olhar diferente a nossa prática em Teatro Playback, e propor atividades que pudessem ampliar a capacidade expressiva e ao mesmo tempo contribuir para o refinamento da linguagem. Isto, sem perder o foco no fato de que esta forma de teatro possui algumas peculiaridades, principalmente na ideia de quê a centralidade não está calcada apenas em atuações sofisticadas, mas a serviço das histórias contadas e de seus narradores. 
Após alguns anos desenvolvendo e praticando o Teatro Playback, a Dionisos  sentiu necessidade de aprimorar essa prática, buscando outros caminhos estéticos para a sua atuação. 

 Seu trabalho generoso mostrou-se bastante eficaz para que possamos traçar esta meta com segurança. Estamos mergulhados na sala de ensaio, praticando e construindo novas formas de devolver, de maneira estética e ética, as histórias contadas pela plateia.  

Talvez o maior desafio seja no caminho da não representação. Não representar, mas acionar, nos colocou num lugar de desafio. Fora da zona de conforto. Como o Teatro Playback é um teatro feito em lugares nem sempre pensado para a atividade teatral, a prática de site-specific nos coloca numa abertura para a maior exploração nos lugares onde comumente praticamos o Playback, transformando e resignificando esses lugares. Certamente a questão espacial, topografia do lugar, os elementos como cor e formas nesses lugares afetarão de modo desafiador o nosso fazer teatral. Algum objeto ou arquitetura que poderiam ser empecilho, podem ser apropriados pela encenação. 
Somos gratos pela sua disposição de partilha do conhecimento. Registro aqui o patrocínio o Sistema Municipal de Desenvolvimento para Cultura – SIMDEC. O recurso no projeto nos oportuniza melhorarmos nossa prática para entregar para a comunidade um trabalho artístico de maior qualidade. 

 Um abraço, 

 Silvestre Ferreira 

Reflexões sobre a Oficina “A Poética do Corpo”

 

Por Clarice Steil Siewert

Nos dias 20 e 21 de agosto fizemos a oficina “A Poética do Corpo”, com a Prof. Dra. Sandra Meyer, com o intuito de trazer sua pesquisa em corpo e movimento e sua experiência com dança e teatro para sala de ensaio, de forma a contribuir com nossa pesquisa em Teatro Playback.

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Fizemos vários exercícios e discutimos alguns conceitos. Abaixo faço um breve relato acerca de algumas ideias/palavras que me mobilizaram:

Composição – em exercícios de composição, colocamos nossos corpos em relação ao espaço e aos outros corpos. Fugindo um pouco da busca por significado, fizemos brotar sentido a partir das relações de movimento e espaço. “A compreensão do que seja uma composição não se restringe ao ato de dispor cenicamente movimento, palavra, som, imagem, mas incide em um posicionamento ético, um ‘pôr-se com’, ou seja, posicionar-se com o outro: com+posição. Em sua etimologia (latim compositio), pressupõe modos de reunir, produzir, dispor, inventar, combinar, arranjar.” (MEYER, S. XAVIER, J., p. 261)*post 1 cena poetica 01

Ao dispor nossos corpos em determinado espaço em relação com este e com os outros atores, oferecemos a quem assiste um quadro gerador de sentidos, que mobiliza nestes a necessidade de também criar. Nesse sentido, compor em cena é trabalhar também e mais fortemente com a plateia, visto que a cena é mais aberta, com menos mediação representacional.

No jogo de arranjar a cena, éramos estimulados a atuar no concreto do espaço, na sua realidade física, estando abertos para os estímulos e um tanto mais responsivos do que pró-ativos. Mas como a própria Sandra alertava, não uma responsividade imediata e defensiva, mas que respira e permite o movimento. Ainda em jogo, a ideia era ir até o fim com o que acontecia, até que não fosse mais possível, então mudávamos o plano, mas ainda respondendo ao nosso entorno.

Falamos sobre o conceito de site-specific theatre, onde a cena é completamente dependente do lugar escolhido de ação. Atuar com o espaço dessa forma é ganhar mais um elemento de composição.

“Compor requer atenção para que não haja conversão, comunhão, apaziguamento estéril, unicidade de sentidos. Inventar requer rever nossas relações com as coisas, para que fiquem à disposição para virarem outras num dado plano de consistência.” (MEYER, S. p. 273) *

Viewpoints – todos já havíamos feito exercícios de viewpoints em outras oportunidades. Trata-se de uma ferramenta muito utilizada no teatro e também no Teatro Playback. Mas pudemos experimentar alguns exercícios que chamaram minha atenção para alguns pontos:

Corpos se relacionando no espaço através de ações simples comunicam muito.

Diferentes velocidades, andamentos e durações geram sentidos diferentes.

Estar nesse estado de jogo nos abre para outras formas de pensar a cena.

A topografia do espaço é também um elemento a se ter mais consideração!

Propor menos, escutar mais.

A repetição leva à diferença (repetindo chegamos em lugares de diferentes sentidos).

Hologramar – adorei essa expressão usada pela Sandra, se referindo a um tipo de “proto-ideia” que temos para a cena. No improviso, em que devemos agir com os estímulos presentes, não há espaço para ideias prontas e prévias. Mas hologramar é possível e é um exercício de imaginação que rápido se desfaz ou se concretiza no contato com o real.

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Objetos – brincamos um pouco com objetos. Discutimos a ideia de manusear e não manipular. Utilizar o objeto na sua concretude, sua realidade física, seu peso, sua forma, sua cor, suas dimensões. Esquecer sua função e não animá-lo. Hierarquicamente colocá-lo ao lado do ator. Novamente promover a geração de sentidos, agindo em relação a esses objetos, considerando que eles, por si só, já são muita coisa.

* XAVIER, Jussara et al (org.) Tubo de ensaio: composição [Interseções + Intervenções]. Florianópolis : Instituto Meyer Filho, 2016.  

A Cena Poética no Teatro Playback: pesquisa de linguagem

O Teatro Playback é uma forma teatral em que os atores e músicos improvisam histórias reais contadas por pessoas da plateia, tendo a figura do condutor como elo entre os artistas e o público. O nome, Playback Theatre, deriva da ideia de representar de volta (playing back) as histórias das pessoas da plateia. Criado em 1975 por Jonathan Fox e Jo Salas, existem grupos que fazem Teatro Playback em mais de 60 países. A Dionisos Teatro completa 10 anos de atuação em Teatro Playback em 2018 e é filiada ao IPTN (Rede Internacional de Teatro Playback).

Teatro Playback Estação 037.jpgEm 2018, após aprovação na Lei de Mecenato do SIMDEC de Joinville – SC, o grupo realizará o projeto “A Cena Poética no Teatro Playback: pesquisa de linguagem”, com o intuito de explorar ferramentas artísticas para o aprimoramento de sua prática na cena, música e condução de Teatro Playback.

 

Entendendo que apenas através da cena esteticamente bem feita e da poesia trabalhada nos corpos e vozes dos atores, músicos e condutores, é possível a prática de um TeatroPayback mais efetivo; serão desenvolvidas várias ações de pesquisa:

  • Promover a oficina “A Narrativa em Brecht” com Barbara Biscaro – UDESC – Florianópolis – SC;
  • Promover a oficina “A Poética do Corpo” com Sandra Meyer – UDESC – Florianópolis – SC;
  • Desenvolver pesquisa em figurinos com Daniel Olivetto – Cia Experimentus – Itajaí – SC;
  • Realizar 6 apresentações de Teatro Playback como demonstração do processo de trabalho;
  • Contribuir com a pesquisa estética do Teatro Playback, ajudando a estabelecer o diálogo desta prática com a cena teatral contemporânea;
  • Explorar as potencialidades poéticas das três funções do Teatro Playback: atuação, música e condução;
  • Ressaltar a atuação e pesquisa de Teatro Playback da Dionisos Teatro, grupo que já é referência desta forma teatral no país;
  • Promover o aperfeiçoamento profissional dos artistas envolvidos;
  • Compartilhar a experiência através de produção textual divulgada em sites específicos
  • Ressaltar a eficácia do Teatro Playback nos seus mais diversos campos de atuação, favorecendo a coesão e inclusão social através do aperfeiçoamento artístico;
  • Oferecer um espaço de discussão da prática do Teatro Playback aberta ao público em geral, democratizando o acesso aos bens culturais;
  • Realizar uma apresentação de Teatro Playback como contrapartida na AMORABI.

O Teatro Playback na Dionisos:

A Dionisos Teatro começou a praticar Teatro Playback em 2008, realizando diversas apresentações abertas ao público e para grupos em comunidades, escolas e instituições públicas e privadas. Principais atividades:

2008 – Circulação Teatro Playback: a Cena na Comunidade e a Comunidade em Cena por bairros de Joinville, em projeto contemplado no Edital de Apoio às Artes de Joinville;

2010 – Apresentação na Abertura da 2ª. Semana da Diversidade de Joinville;

2010 – Apresentação na CENA 7 – Mostra da Associação Joinvilense de Teatro;

2011 – Participação do grupo na 10ª. Conferência Internacional de Teatro Playback em Frankfurt – Alemanha;

2014 – Lançamento do livro “Nossas Histórias em Cena: um Encontro com o Teatro Playback” da atriz Clarice Steil Siewert;

2014 – Apresentação na abertura dos cursos do Centro de Teatro Playback em Curitiba;

2015 – Circulação de apresentações para grupos de mulheres no Projeto Mulheres em Cena, contemplado no Edital de Apoio às Artes de Joinville;

2015 – Participação na Conferência Internacional de Teatro Playback em Montreal, Canadá;

2015 – Co-Realização do 1º. Encontro Brasileiro de Teatro Playback em Joinville;

2017 – Participação do projeto DOC.Playback, com a realização de três documentários a partir de apresentações de Teatro Playback voltado para grupos de professores, mulheres, idosos e público LGBT, com a direção de Fabrício Porto;

2017 – Participação na Usina Teatral do SESC – Santa Rita – Recife, que teve como tema Teatro e Memória: as interfaces das narrativas do Teatro do Real na Cena contemporânea, com apresentação, oficina de formação e participação em mesa de debates;

2017 – Silvestre Ferreira torna-se Professor Credenciado do Centre for Playback Theatre;

2018 – Realização do projeto Mulheres, Mães e suas Histórias: Uma Vivência Através do Teatro Playback no Edital de Apoio à Cultura de Joinville, com formação de grupo e apresentações voltada para mulheres/mães.