Por Vinícius Ferreira
O Teatro Playback, atualmente, é um dos trabalhos que ocupa um lugar muito poderoso no campo da criação dentro do grupo que faço parte. Neste barco desde 2008, a Dionisos Teatro completa, este ano, 11 anos fazendo Teatro Playback, e eu completo este mesmo tempo ocupando o lugar da criação musical dentro do trabalho.
É importante contextualizar, porque nosso processo de criação passou por muitos momentos diferentes durante esses anos todos e, ano passado, a partir do nosso projeto de pesquisa de linguagem, o embrião do que vem acontecendo em nossas últimas apresentações foi gerado. Mergulhar na pesquisa é olhar pra trás pra apontar pra frente, esvaziar os vícios e preencher de novas texturas e experiências, foram duas oficinas com cargas distintas de conhecimento, mas que através do trabalho em cena geraram muito material para abastecer o repertório de criação do nosso Teatro Playback. Depois de 11 anos nos vimos preparados para derrubar algumas barreiras, confundir as regras do jogo, jamais negando, mas sim aprendendo a caminhar no espaço em que essa modalidade de fazer teatral instaura em quem a vivencia: o risco da queda.
Como músico improvisador, esse processo foi transformador. Uma das oficinas, dada pela Bárbara Biscaro, tratava sobre a música na cena e nos trouxe muitos mecanismos para incluir e diluir esse espaço de criação entre atuação e música. Uma das dificuldades apontadas pelos atores em nosso grupo é a de escutar a música, tenho certa desconfiança nessa colocação, porque sinto a conexão entre o que é tocado e o que é feito em cena, embora talvez essa percepção escape aos ouvidos dos atores, a sensibilidade aguçada nesses dias de trabalho já estava presente, em menor grau talvez, mas a sinergia sempre foi visível na troca entre a música e atuação. O que vejo é que durante a pesquisa o espaço de criação musical foi abraçado pela atuação, e desenvolvemos algumas ferramentas de treinamento, para estabelecer a confiança no desafio de criar a trilha sonora da apresentação de forma mais coletiva e diluída. Abaixo vou escrever sobre algumas dessas ferramentas:
Arpejos
Utilizando o acordeon, escolho um acorde, maior ou menor (evito acordes de tensão, mas podem ser utilizados se o grupo se sentir confortável em experimentar) cantamos o arpejo, nota por nota junto com o instrumento, em algum momento eu passo a improvisar no instrumento e as pessoas seguem improvisando usando as notas do arpejo e da escala do acorde escolhido. Paro de tocar o instrumento, ficam só as vozes, por vezes nesse momento conseguimos criar música em grupo, brincando com o ritmo e com as melodias cantadas. Volto a tocar o arpejo no acordeon, as pessoas também voltam a cantar o arpejo até que encerramos juntos. Esse exercício ajuda o grupo a cantar dentro de uma mesma escala e a experimentar as notas executadas no arpejo abrindo vozes e sugerindo possibilidades rítmicas.
Cânones
O cânone é um canto em grupo em que se divide de forma diferente o tempo em que cada pessoa começa. Existem diversos cânones diferentes. É um ótimo treinamento para a musicalidade do grupo porque exige uma concentração muito conectada com a que o jogo entre músico e atores precisa: manter sua voz e ao mesmo tempo ouvir o grupo, estabelecer a troca e mesmo fazendo coisas diferentes ter a noção de que é preciso manter firme sua parte e jogar com os outros.
Paisagem sonora/ Ritmos inventados
A ideia é parecida com a criação musical coletiva que o exercício do Arpejo proporciona, mas aqui trabalhamos com os sons de forma muito rítmica e menos melódica, sem tantas preocupações com a afinação e com as escalas. Propomos um som pra iniciarmos juntos, um chiado, ou algum som que se repita criando uma base sonora/rítmica e a partir disso começamos a incluir outros sons. A repetição coletiva do mesmo som no início é importante porque gera um espaço comum para incluir as outras propostas. Deixar-se afetar pelos sons, propor respostas a partir do que o outro faz, tomar decisões juntos do caminho que a sonoridade segue, tudo isso é explorado no exercício. Quando cantamos a história em cena* (uma forma que estamos experimentando) muitas vezes esse exercício é a base para iniciar a canção, ai os sons utilizados partem do contexto da história.
…………
Partindo desses exercícios, nós criamos uma forma que chamamos inicialmente de “Metro Cantado”, mas que coloco aqui como “História Cantada”. Acredito que cantar as histórias não é algo novo no Teatro Playback, mas definimos alguns caminhos que ajudam o grupo a fazer esta forma coletivamente.
*História Cantada
Está é uma forma nova pra gente que nasceu a partir do processo de pesquisa. Quando o condutor chama essa forma os atores vem para próximo do músico e se posicionam de um jeito que todos podem se ver e trocar. Eu proponho um tom, trabalho com o acordeon ou com o violão (quando experimentamos as primeiras vezes eu usava apenas o acordeon e a forma sempre começava com um arpejo, isso não foi mais necessário por conta do treinamento, agora já conseguimos cantar na escala a partir do tom proposto pelo instrumento). Às vezes antes mesmo do tom ser proposto, começamos a criar uma paisagem sonora/rítmica da história, isso ajuda a levantar material para a canção e cria pontos de retorno, esses pontos são importantes para o arco da forma. Ex.: Fizemos uma história em que o narrador havia tido seu relógio roubado, no início propomos o “Tic Tac” do relógio e este mesmo som apareceu outras vezes no meio da canção e também serviu para marcar o final da cena. O que fazemos também é propor uma frase cantada que se repita, como o refrão de uma música, ter esse refrão na voz de todos também ajuda na condução da canção. A letra da frase pode ser poética ou mais direta, mas é bacana pensar que ela precisa principalmente ser de fácil entendimento para quem assiste e para quem canta, assim a repetição da melodia cantada fica mais tranquila de ser executada. Também não nos limitamos a apenas cantar, se necessário algumas partes podem ser narradas e o jogo cênico, que nesta forma fica em função da canção, pode fortalecer muito a cena, quase como a coreografia da canção criada.
Função da música e dramaturgia sonora
No Teatro Playback o lugar da música tem uma função muito importante para o ritual. Ela atua como elemento de ligação entre a fala do condutor e o início da cena, como sonoplastia, trilha sonora, fazendo a voz de algum personagem, trazendo alguma canção ou sonoridade que faz parte do contexto em que a história está inserida, entre outras possibilidades. Durante muito tempo eu sempre trabalhei nesse lugar de forma muito empírica, atravessado pelos sentimentos que a história trazia e também tentando sempre me conectar com o que os atores estão fazendo. A música é muito poderosa, uma melodia forte conduz todo o andamento da cena e há algum tempo, com o feedback do grupo, venho aprendendo a ter escolhas mais racionais na inclusão das sonoridades. O escritor Lívio Tratemberg fala sobre isso quando define os conceitos de procedimento e clichê em seu livro “Música de Cena”:
O procedimento é um instrumento pelo qual o compositor realiza a ideia criativa na linguagem, a partir de elementos que são criados tendo em vista um objetivo original. Desempenham funções, sejam elas positivas ou negativas. O clichê é a articulação simbólica de elementos que resultam num alto grau de reconhecibilidade e redundância e no esvaziamento do objeto como elemento dinâmico. […] O uso do clichê portanto imobiliza de certa forma os objetos. Mas no entanto provoca uma dinâmica no processo de referencialidade ou comparação entre os diferentes elementos em jogo.
(TRATEMBERG,2008, pág. 39)
Com o entendimento destes conceitos e tendo muitas experiências práticas como músico improvisador, as possibilidades na criação sonora dentro do ritual do Teatro Playback ficaram maiores no trabalho que fazemos. Saindo da lógica de apenas reforçar o que está sendo feito na cena e praticando o lugar da proposição de elementos que contribuam para a dramaturgia da encenação, usando muito o apoio do que está posto, mas também buscando o contraste e outras vezes sonoridades que fujam desses dois lugares mas que contribuam para o universo sonoro da história. Aprender a lidar com o silêncio como potência cênica também tem sido importante.
Durante nosso processo de pesquisa eu me vi num lugar em que, além de propor, eu podia me deixar tocar pelo que os atores propunham musicalmente, para que a partir desse jogo, enquanto músico eu pudesse fortalecer as propostas deles e criar um espaço mais democrático da ambientação sonora e também mais fortalecido como trilha para cena, porque assim se dilui o local da música na perspectiva do espectador. Um dos exercícios que pratico para que consiga encaixar as tonalidades e superar as dificuldades técnicas, é propor sutilmente um acorde que possibilite a entrada das vozes caso os atores queiram cantar, para fazer isso observo muito a cena e a reação dos atores em relação ao que está acontecendo, também observo qual dos integrantes está mais disposto a cantar durante a cena e levo em consideração as vozes e o campo de frequência que quem vai cantar está mais acostumado para propor o tom, isso tudo é muito subjetivo, várias vezes não sai como o planejado, mas ter esse cuidado fortalece muito a musicalidade do espetáculo.
Depois de estabelecido a proposta dos atores eu busco encontrar a melodia por eles criada, tanto reforçando ela no canto, quanto procurando as notas no instrumento (violão ou acordeom) e a partir daí construímos juntos. Não existe uma receita aqui, apenas um estado de afetação elevado em que tudo que se propõe em cena pode influenciar na musicalidade da história. Acredito que o tempo de trabalho deste elenco nos fortalece muito enquanto playbackers, as nuances e formas de agir de cada um já estão incorporadas nas trocas, essa condição nos deixa mais confortáveis em assumir os riscos e em propor e abraçar as ideias musicais que surgem. Um jogo de aceitar a oferta do outro e principalmente de aceitar abandonar a sua oferta a qualquer momento.
A tecnologia a serviço da cena
O set musical de nosso Teatro Playback é composto por instrumentos de efeitos e percussão: chocalhos de diferentes timbres, caixixi, pandeiro, tambor, apitos de pássaros, claves e instrumentos melódicos e harmônicos: violão, acordeon, harmônica, flauta, voz.
Como ferramenta para ampliar as possibilidades musicais, durante nosso processo de pesquisa, incluímos um pedal de looping no setup da música. O pedal de looping pode ter várias características, mas basicamente ele é um repetidor de áudio fiel dos elementos a ele conectados. Dentro do universo da música ele é muito utilizado em apresentações solos em que o artista faz uma base e vai sobrepondo camadas. Em nossa apresentação eu utilizo um pedal bem simples da marca Boss, modelo RC1, controlando o volume com os pés no botão do próprio pedal. Costumo utilizar poucas sobreposições quando o uso para gravar o violão, ou algum efeito de percussão, isso muito por conta da velocidade e precisão necessária para incluir essas sobreposições organicamente na cena. Este pedal está conectado a uma mesa de som, em que, inicialmente o violão e um microfone para os atores e outro para mim estavam conectados. Em nossos ensaios estamos no processo de experimentação dessa tecnologia pelos atores, com o microfone à disposição e comigo definindo o corte do looping temos feito algumas coisas bacanas. A voz no microfone amplia e desloca o lugar da voz dos atores, esse é um terreno que deve ser percorrido com cuidado, mas que pode conceber muita força para a encenação dependendo da forma que for utilizado. Nesse espaço seguimos caminhando e aprendendo. É importante ter claro que a tecnologia deve estar a serviço da cena e dependendo do que acontece na apresentação ela nem é utilizada, quando nos obrigamos a incluir este elemento, ele pode muito facilmente atravancar a musicalidade da encenação, engessado as possibilidades dos atores e do músico. Menos é mais, sempre.
A voz do narrador como elemento dramatúrgico
Recentemente, durante uma das apresentações de demonstração do processo de pesquisa, aconteceu algo que não estava previamente planejado. Eu havia preparado o microfone sem fio para os atores e percebemos que precisávamos de um microfone para o narrador, esse microfone dos atores ficou então à disposição dos narradores durante a apresentação. Numa das histórias um menino contava sobre sua avó já falecida e a saudade que ele tinha dela, enquanto o Silvestre fazia a condução me dei conta que o microfone do narrador estava conectado ao pedal de looping e que eu poderia gravar sua voz, zerando o volume do pedal, assim o sample captado não sairia nas caixas de som, fiquei aguardando o momento em que poderia fazer a captação da voz. Nosso condutor costuma fazer algumas perguntas no fim da entrevista , perguntas como “Que elemento da natureza essa história/pessoa seria?” ou “Qual nome você daria para essa história?”, lembro que ele perguntou para o menino qual elemento da natureza a avó dele era e eu captei a resposta do narrador no pedal “A minha vó? A minha vó era o vento”. Essa frase ficou guardada em silêncio no pedal e a forma escolhida para a encenação foi “História Cantada”. Fizemos o jogo inicial com as sonoridades e criamos a canção, quando percebi que a cena caminhava para o final, comecei a aumentar o volume do pedal de looping e a frase captada com a voz do menino passou a ser parte daquela canção, cessamos o canto e a voz dele foi quem terminou a encenação. Interessante pensar que a partir do acaso e tendo a tecnologia disponível foi possível devolver para o narrador uma história que continha sua própria voz, de alguma maneira ele pode receber de volta, além da nossa proposta cênica, a poesia que a frase dele se transformou ao ser repetida na cena. Em outra apresentação, já consciente dessa possibilidade de interação, durante uma história em que a narradora falava sobre um projeto social em que trabalhou com crianças em situação de risco que eram desencorajadas a aparecem em fotos, sabendo disso ela teve a ideia de que cada criança tivesse seu álbum de fotografias com as suas imagens para que elas pudessem contar ali as suas histórias. Durante a entrevista me mantive atento para uma boa oportunidade de captar a voz da narradora sem cortar nenhum pedaço, ao fim da história, quando ela contava sobre uma das meninas que, durante a festa de fim de ano, veio com o álbum e uma caneta e pediu para que ela escreve uma mensagem, neste momento nosso condutor perguntou o que ela havia escrito, acionei o pedal e captei a resposta da narradora: “Não, ela me pediu pra escrever ‘Essa é a minha história’”. A forma escolhida foi a Raia, esta é uma forma narrativa nova, nela os atores utilizam muito os conceitos de viewpoints e criam interações e repetições utilizando os elementos da história e se afetando uns pelos outros. Percebendo o final da cena eu subi a voz da narradora, os atores começaram primeiro a interagir com a frase captada, repetindo entre eles o que a narradora dizia, depois foram silenciando e seguiram com os movimentos, criando uma coreografia simples, composta pelos corpos e tendo a frase dita pela narradora como trilha sonora. Este foi um momento muito forte da apresentação, a narradora foi pega de surpresa ao ouvir sua voz em cena.
Como playbacker vejo muita potência nessas nossas descobertas da utilização da voz do narrador em cena, que talvez até já tenha sido feita em outro momento e por outras Cias. de Teatro Playback pelo mundo ao longo desses 40 anos de existência. Devolver para o expectador e principalmente para o narrador a sua própria voz como parte integrante da encenação dilui ainda mais a linha entre performers e público e também entre o que é música e o que é encenação. Nesse sentido, o uso de forma orgânica da tecnologia contribui para o fortalecimento do ritual. É preciso entender que quem aperta o botão somos nós e a ferramenta deve estar a serviço da encenação. Sensibilidade, escuta atenta, afeto e respeito com as histórias são premissas antigas no Teatro Playback e continuam fundamentais para quem quer experimentar essas experiências em suas vivências.








Em 2018, após aprovação na Lei de Mecenato do SIMDEC de Joinville – SC, o grupo realizará o projeto “A Cena Poética no Teatro Playback: pesquisa de linguagem”, com o intuito de explorar ferramentas artísticas para o aprimoramento de sua prática na cena, música e condução de Teatro Playback.